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Sexo@Cidade Flávia de Gusmão A colonização do homem-bomba 1 A chegada do homem-bomba Uma coisa temos que reconhecer: os homens têm uma persistência de missionário quando querem colonizar uma mulher. E uma estratégia desenvolvida ao longo dos séculos. O primeiro dogma disseminado para alcançar o objetivo é fazê-las recitar o credo: Homem está difícil de conseguir. Tendo fé neste enunciado, a mulher fará tudo para agarrar e segurar o seu homem-bomba. O homem-bomba é aquele que vai tornar a vida dela um pouco pior, mas acompanhada, pelo próximo período: vai encher o saco, ditar regras, pegar no pé, restringir movimentos, fazer com que o capital estrangeiro migre para outros mercados e ainda providenciar um sexo de baixíssima qualidade. Prejuízo total. 2 Latifúndio que pede ocupação É fácil reconhecer uma mulher colonizada. Primeiro pelos signos gestuais: Ela nunca diz nada que possa levar o colonizador a pensar que ela tem mais miolos do que ele gostaria. Exemplo 1: num restaurante muito chique da cidade, uma mulher pronta para ser colonizada expõe seu território a dois candidatos. O bate-papo, pelo que minha habilidade de ouvir a conversa alheia pôde capturar, versava sobre o conflito que está dividindo os mundos cristão e islâmico. À certa altura, um dos dois comentou o absurdo que é uma guerra religiosa. Ela soltou a seguinte observação: Pois é, Deus é um só. Esse clichêzaço servido entre a entrada e a sobremesa faz parte do jogo da colonização. É como aqueles tomates cortados em forma de flor que vêm no prato, servem só para decorar. Não combina com as regras da colonização tirar do bolso uma análise sensível e detalhada da situação geopolítica do Afeganistão ou a discussão de uma nova ordem mundial. Deus é um só está de bom tamanho. 3 As regras pós-ocupação Mulheres nascem território livre e algumas continuam assim, mas aquela que foi colonizada desenvolve um comportamento padrão. Exemplo 2: numa conversa entre casais amigos, ela é sempre a escada para a piada ou observação dele. Nenhum diálogo termina sem que ela dê uma discreta alisada no braço ou no ombro do parceiro, querendo dizer com isso que o apóia e admira, não importando a asneira que ele acabou de dizer, alisando a barriga e empostando a voz para se certificar de que foi ouvido não apenas pelo resto da mesa, mas por todas as pessoas que dividiam o mesmo ambiente. O pior de tudo ainda é a busca verbal por aprovação: Não foi, minha filha?. Minha filha, aliás, é a palavra-mascote do colonizador. Ele a usa como quem usa pasta de dente, só que geralmente antes das refeições. Minha filha, faz meu prato, Minha filha, faz um sanduichinho pra mim e aproveita traz uma cerveja. O segundo mandamento pró-colonização a ser instaurado com urgência é convencê-la que aquela melhor amiga que ela tem: poderosa, gostosona e totalmente livre para escolher seus parceiros fora do circuito homem-bomba, é uma vagabunda. Vai dizer que ela deve ser muito infeliz porque, afinal, a vida dela é muito vazia, coitada. Sai do trabalho, vai para um apartamento sozinha, se arruma toda e sai para as baladas todas as noites, se enche de champanhe e dorme até tarde no dia seguinte. Isso lá é vida? Não, é vidão, pensa a colonizada, mas sem coragem de falar para fora. Colonizadores têm verdadeiro pavor que o seu povo vislumbre as delícias de um território não-invadido, mas não dizem que, se houver chance, eles mesmos gostariam de tentar uma aproximação com a tal vagabunda. 4 Homens nos colonizam com besteiras Os homens colonizam suas mulheres fazendo-as acreditar que as besteiras deles são coisas de alta magnitude, mesmo que seja uma discussão acalorada sobre como o som do seu carro ficou mais potente ao instalar um speaker Kwxyrt. Como se fosse possível o ouvido suportar mais do que um limite normal de decibéis. O colonizador desdenha de todos os assuntos que não domina e a mulher colonizada se mantém, cuidadosamente, dentro dos limites estabelecidos. Se ele não entende de arte vai dizer que é coisa de viado. Se não consegue decifrar além dos diálogos de Rocky, o Lutador vai dizer que vai ao cinema para se divertir e não para pensar. Se vai a uma exposição vai só porque porque a mulher é amiga do artista e sai falando mal do que não levou nem cinco minutos para olhar de relance. Fica no ar uma premência de sair logo e se dedicar ao que ele acha importante: o uiscão e a conversa importante sobre a tabela do campeonato brasileiro. Homem-bomba adora mesmo é a conversa de outros homens-bomba, o resto é figuração. |
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