LG_jc.gif (3670 bytes)

LONGA-METRAGEM
Amarelo Manga já é fotograma

As filmagens do primeiro longa-metragem do diretor pernambucano Cláudio Assis terminaram ontem, depois de cinco semanas de trabalho

por JÚLIO CAVANI

As filmagens do longa-metragem pernambucano Amarelo Manga terminaram ontem, em Olinda, após cinco semanas de trabalho intenso. A equipe de produção conseguiu filmar tudo o que havia planejado, sem precisar cortar nenhuma das seqüências previstas no roteiro. Antes de finalizada, a produção já obteve o mérito de reunir um prestigiada equipe, que inclui o diretor de fotografia Walter Carvalho e, integrando o elenco, atores como Matheus Nachtergaele, Jonas Bloch, Dira Paes, Leona Cavalli e Everaldo Pontes. O cineasta Cláudio Assis estréia na direção de um longa.

Os personagens do filme, que não tem um protagonista, vivem em um ambiente decadente, que contamina também seus comportamentos. Essencialmente marginais, são produto de uma sociedade que procurou escondê-los ‘embaixo do tapete’, obrigando-os a viver num ambiente de transgressão.

Apesar de contar uma história ficcional, o cineasta fez questão de manter bem presente a realidade dos ambientes retratados. Em uma das seqüências, os atores foram inseridos em meio às atividades de um matadouro. “Enfiamos os personagens no meio de uma cena que já acontecia”, conta Assis, que faz questão de frisar o quanto o contato com a realidade interferiu no filme.

Iniciada em setembro, a primeira etapa das filmagens utilizou um antigo casarão no centro do Recife, cuja estrutura foi transformada num decadente hotel, peça-chave da narrativa. Depois, a equipe percorreu os locais nos quais viveriam (ou vivem) os transgressores personagens da trama, mantendo como figurantes os próprios traseuntes naturais desses ambientes. Foi aproveitada, inclusive, a reação dessas pessoas diante das câmeras, procurando transferir esse estranhamento aos futuros espectadores. As últimas cenas foram filmadas em um boteco em Olinda.

A diretora de arte Renata Pinheiro resolveu manter a estrutura original dos cenários retratados. Porém sua composição cenográfica foi modificada para se obter um resultado propositalmente eclético, fruto de sua pesquisa em ambientes recifenses semelhantes aos retratados. Ela procurou, com estilo, ser “fiel ao universo dos personagens”. Por mais kitsch e exagerado que pareça o resultado, ele condiz com o que permite sua realidade inspiradora.

O amarelo do título estará presente, durante todo o filme, em diversos objetos de cena. A cor irá se intensificando aos poucos, e, perto do final vai começar a predominar. Segundo Renata, isso vai simbolizar a condição dos personagens, pois cenário vai acompanhar seus sentimentos. Em algumas cenas, o vermelho também irá estar bastante presente, simbolizando o sangue, a religiosidade e o sexo.

ELENCO – Jonas Bloch vive Isaac, um traficante que possui passatempos nada ortodoxos, como atirar em cadáveres que ele adquire em troca de drogas. O ator admite que nunca havia feito um personagem tão “pilantra, transgressor, marginal e maldito”. Segundo o ator, o longa “vai do retrato dos excluídos até uma série de símbolos. Se não tivesse qualidade, poderia descolar para o vulgar. Acho que o filme vai marcar um momento do cinema brasileiro. As pessoas vão adorar ou odiar”, adianta.

Matheus Nachtergaele será Dunga, um sensível e irreverente travesti que administra um hotel barra-pesada junto com Bianor (Cosme Soares) e com uma prostituta (Conceição Camarote). A atriz Dira Paes é uma evangélica que, apesar da aparência recatada, esconde uma libido selvagem. Seu Marido é o açougueiro Wellington Canibal (Chico Diaz), morador do Alto José do Pinho. O paraibano Everaldo Pontes (que impressionou o mundo com a peça O Vau da Sarapalha) faz um funcionário do IML que trafica corpos.

Leona Cavalli (do não menos pesado Um Céu de Estrelas) vive a agressiva Lígia, que possui os cabelos e os pêlos pubianos pintados com a cor do título. De última hora, ela entrou no lugar de Fabiana Pirro. Por ser bela, jovem, bonita e trabalhadora, ela é recriminada, e precisa “defender seu território com unhas e dentes”, como explica a intérprete. Para simbolizá-la, Cavalli citou sua fala inicial: “Eu ainda não encontrei quem me mereça. Aqui só se ama errado”.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 01.11.2001
Quinta-feira