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MÚSICA
Globalização é via de mão dupla e pra lá de agitada

World Music não é só folclore. É um legado sonoro que não teme a modernidade

POR JOSÉ TELES

O rótulo world music surgiu nos anos 80 para classificar um tipo de música, não necessariamente folclórica, mas com raízes étnicas, difícil de ser incluída entre os estilos e gêneros assimilados pelo mercado dos EUA e Europa. Não se atentou, porém, que essa tal de world music, tratava-se de uma nova música, feita por uma geração que enriquecia o legado sonoro de seus antepassados com as influências importadas.

Dessa maneira, numa estreiteza de visão provinciana e colonizadora, foram enquadrado como world music tanto Caetano Veloso (quando foi descoberto pelos americanos, por volta de 87), quanto o grupo português Madredeus; tanto Salif Keita quanto Fela Kuti. Culminou a estultície, na última cerimônia do Grammy, com o sofisticado João Gilberto sendo premiado como cantor de world music.

A world music, aos poucos, foi deixando de ser tratada como manifestação cultural exótica, e seus vários gêneros conhecidos pelo nomes que têm em seu país de origem, onde está sendo criada uma música instigante, sem medo nem preconceito da eletrônica.

Em proporções ainda tímidas, começam a aterrissar nas lojas brasileiras alguns CDs de astros bem sucedidos da world music, sobretudo na Europa, que, sob influência dos imigrantes das antigas colônias, aceita sons diferentes, com mais facilidade. O MCD é um dos novos selos atuantes no Brasil especializado nesse tipo de música. Seu catálogo inicial traz dois CDs híbridos, sons orientais reprocessados por europeus, indianos e árabes, Dissidenten in Arabia e Agricantus.

Dissidenten in Arabia, reúne dois discos do grupo Dissidenten, Sahara Electric E Life at the Pyramids, trabalhos que deram origem ao pop-arab que se tornou moda nas pistas de dança européias, nos anos 80. O Dissidenten foi formado por três músicos alemães, Friedo Josch, Ulve Muellrich e Marlon Klein. Insatisfeitos com a música que escutavam em Berlim, em 1980, eles partiram para a cidade indiana de Madja Pradesh, onde gravaram o primeiro disco do grupo, Germanistan, com participação de percussionistas e cantores indianos.

As músicas de Dissidenten in Arabia resultam de incursões pelo Norte da África. A trinca passou o ano de 1983 viajando com um estúdio móvel pelo Sahara gravando os sons com os quais se deparavam ao longo do trajeto. No ano seguinte, em Tânger, Marrocos, produziram Sahara Electric, com participação de músicos marroquinos. Puristas carimbariam o trabalho como oportunista e predatório, pelo fato de os alemães terem feito um disco comercial, dançante, com uma densa camada de bases eletrônicas, e batidas programadas. Eles podem ter tido essa intenção mas os próprios músicos árabes foram pioneiros em fundir sua própria música com elementos ocidentais.

Life at the Pyramids, do ano seguinte, disseminou uma onda árabe nas discotecas européias. O disco difere do anterior pela participação de músicos egípcio e por ter sido produzido em Madri. A guitarra-base ponteia grande parte do álbum, a levada lembra a da lambada, que naquela época começava a ser tocadas nas pistas européias. O som é mais convencional, com menos experiências eletrônicas e escalas orientais. Os teclados soam iguaizinhos ao da axé music. Dissidenten in Arabia estaria datado, se a onda do pop-arab tivesse pegado no Brasil em 1986, quando Fata Morgana, uma de suas faixas, foi um sucesso menor, catapultada pela sua inclusão na trilha da novela global Sassaricando.

SICILIANO – Best of Agricantus, é uma coletânea do grupo italiano, da Sicília, Agricantus. A banda foi fundada em 1979, em Palermo por três músicos influenciados pela tradição musical siciliana. Essa ilha no sul da Itália foi, durante séculos, um entreposto multicultural. Colonizada pelos fenícios, 800 anos antes da era cristã, assentaram bases por lá cartagineses, romanos, normandos, árabes, alemães, franceses, aragoneses e espanhóis. Foi estado-independente até 1860, quando se uniu ao Reino Unido da Itália.

A herança dos colonizadores rendeu à Sicília uma música com caraterística especial. Os músicos do Agricantus, tais e quais os alemães do Dissidenten, reciclam o antigo com o moderno, porém de forma mais original, e contemporânea. A discografia da banda é extensa, daí as diferenças de timbres da coletânea. Com muitos loops, grooves variados, letras em italiano, dialetos europeus, tuareg, o Agricantus foi incorporando as tendências surgidas nas últimas duas décadas do século passado, e hoje é muito mais um grupo tecnopop.

Enquanto europeus rumam em direção ao terceiro mundo, os terceiromundistas percorrem o caminho inverso, documentado na coletânea Phaz Global # 1. O CD reúne astros de quatro continentes, os quais temperam sua música com muita eletrônica, direcionando-a às pistas de dança. Indian Ropeman, isto é, Sanjiv Sen, um dos vários músicos da cena indo-britânica, coloca uma raga à disposição do big beat, mesclando cítara com samplers e programações. Sly & Robbie, a melhor cozinha rítmica do reggae jamaicano nos anos 80, vem com dois remixes do álbum Strip to the Bone, um deles se intitula Da lata, mostrando que a expressão carioca ganhou o mundo.

Entre os mais conhecidos estão Mano Chao, com Clandestino, e o os colombianos Aterciopelados (que se apresentaram no último Abril Pro Rock), com Caribe Atomico (mesmas faixas dos álbuns homônimos). As experiências mais bem sucedidas são as do argelino Cheb Mami, ídolo do rai, a música pop argelina (rai significa opinião), com um grupo de rappers franceses, o cubano Sergent Garcia, com o balanço que ele rotulou de salsamuffin, e o trip hop africano do senegalês Baaba Maal. Um disco que prova que a globalização, pelo menos musical, é uma via de mão dupla, e extremamente movimentada.

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Jornal do Commercio
Recife - 03.03.2001
Sábado