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O MESTRE DE TODOS OS PERNAMBUCANOS
“O mestre de todos nós” faz 150 anos

Francisco Augusto Pereira da Costa foi o cronista por excelência das coisas pernambucanas

POR MÁRIO HÉLIO

No dia 16 de dezembro do próximo ano é o sesquicentenário de nascimento do mais importante cronista da história de Pernambuco, Francisco Augusto Pereira da Costa (16-12-1851/ 21-11-1923). Tempo há suficiente para que secretarias, fundações, universidades, institutos, editoras festejem-no ao menos aniversariamente.

É a hora, por exemplo, de a Fundarpe acelerar o processo de tombamento da casa onde ele nasceu (rua Ulhoa Cintra, 40, em Santo Antônio), que se arrasta desde abril. De a Secretaria de Educação cuidar melhor da escola que tem o seu nome em Maranguape I, que está caindo aos pedaços. Mas, sobretudo, de reeditar as suas obras.

Pereira da Costa é autor de obras indispensáveis para o conhecimento da história e da cultura local. O folclore, o vocabulário, os heróis - tudo o que diz respeito ao estado foi pesquisado pelo autor, que, sozinho, escreveu uma dezena de grossos volumes dos “Anais Pernambucanos”, que estão a exigir urgente reedição. Quem sabe um pool de editoras, com patrocínios públicos e privados, poderia trazer ao mercado tão indispensáveis volumes?

Pereira da Costa é daqueles esquecidos (ou silenciados, como prefere Alberto Cunha Melo). Quem quiser encontrá-lo poderia tentar nos sebos, onde os seus livros são vendidos a preços exorbitantes. Ou nas bibliotecas. Mas as bibliotecas de Pernambuco são arremedos e vivem tão abandonadas quanto o próprio autor.

Pra que tanta ênfase num historiador que a maioria desconhece (a maioria desconhece todos os historiadores)? Melhor responder usando os versos feitos prosa de João Cabral de Melo Neto: “Ele foi quem mais ajudou o Pernambuco necessário, porque com sua aplicação, não de artista mas de operário foi reunindo tudo, salvando tanto o perdido quanto o achado”. Os versos feitos prosa de João Cabral de Melo Neto dizem-no bem de que modo compôs a sua história: “Sem o sotaque do escritor nem o demônio do missionário, só quis de pernambucania ser simples professor primário.”

A humildade de Pereira da Costa e dos seus parentes talvez seja uma das diversas explicações para que não seja mais destacado. Pernambuco ainda gosta de ser escravo de uma besta aristocracia e de outra, ainda mais besta, no sentido literal, burguesia. Orgulhosa de tudo o que desconhece. Menos por falta de memória que de vergonha na cara.

O busto de Pereira da Costa no parque 13 de maio está tão abandonado que até a data na placa foi posta com erro. Mas isso não é um caso isolado. Pernambuco gosta de tratar assim os seus heróis. Com desprezo. Um desprezo épico, que devota até a acontecimentos inteiros, como as suas chamadas revoluções libertárias e a batalhas como as dos Guararapes.

Seria injusto exigir hoje de Pernambuco mais do que poderia dar. O estado faz par com a maioria do Brasil, país de excessos, tão exuberante que fautor da sua própria carência com a cultura e a história. Se o país parece abrir mão até da própria língua, como esperar que se interesse por um historiador amador de Pernambuco? Gosta de shows, de festas, de cortejos para inglês ver, mas tem tanto horror a documento que sempre deixou o Arquivo Público (onde se guardam tantos vestígios de Pereira da Costa) entregue às baratas.

Pernambuco desconhece Pereira da Costa porque desconhece a si mesmo. Aprender a conhecer um é descobrir de imediato o outro. Como logo percebeu José Pereira da Costa Brito, 52, que se maravilhou da obra do seu bisavô quando tinha vinte anos. “Desde há 15 anos estou empenhado na divulgação da obra dele, e, pelo menos, há cinco, penso nas comorações do seu sesquicentenário”, diz Costa Brito. Ele já tem organizada para reedição a biografia do avô ilustre, escrita por Attilio Joffily. A última edição já tem mais de trinta anos.

Os festejos do sesquicentenário de Pereira da Costa bem poderiam começar pelo mundo oficial. A Assembléia Legislativa, por exemplo, que detém desenhos seus sugerindo a própria ordenação dos símbolos da bandeira de Pernambuco, daria o bom exemplo promovendo algo em torno desse “brasileiro singular”, no dizer de Joffily. A Secretaria de Cultura deveria, juntamente com a Companhia Editora de Pernambuco, promover a reedição de suas obras. À Universidade Federal de Pernambuco, através do departamento de História, caberia realizar um seminário ou curso a partir de sua obra. A Fundaj, o Arquivo Público e o Instituto Arqueológico se louvariam promovendo exposições e conferências. E quanto mais órgãos melhor para fazer justiça a quem cuidou da sua terra mais do que a sua própria família. Mas que parece ter feito escola, pois o seu segundo bisneto já se anima a trilhar o mesmo caminho, e começa por valorizar o que ele produziu. Costa Brito acaba de organizar uma nova edição da biografia escrita por Joffily, Um Brasileiro Singular. Além do que já continha na edição original, acrescentam-se novos documentos.

No dossiê, há o histórico da vida escolar, vida profissional e vida parlamentar.

Nesse primeiro tópico, há algumas curiosidades, que se destacam: em meados do século 19, no Recife, num colégio como Nossa Senhora do Bom Conselho, havia três tipos de ensino: a instrução primária, a secundária e o recreio. Na primária, aprendia-se leitura, caligrafia, contabilidade, ortografia, doutrina cristã, civilidade, língua nacional, história do Brasil e noções de geografia. No secundário tinha-se instrução de latim, grego, italiano, alemão, francês, inglês, geografia, álgebra e trigonometria. Além disso, havia dois cursos suplementares profissionalizantes na área de comércio e agricultura. No recreio, desenholinear, de paisagem e de figuras, música e dança. Uma aula de pitoresco é esse Um Brasileiro singular.

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Jornal do Commercio
Recife - 04.12.2000
Segunda-feira