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GILBERTO FREYRE
Novo seminário destaca Freyre

“Outros Gilbertos” , promovido por núcleo do departamento de Antropologia da UFPE, começa amanhã

Começa amanhã , às 15h, no auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE, o seminário “Outros Gilbertos”. O encontro discutirá a obra de Gilberto Freyre, na visão de Roberto Cavalcanti de Albuquerque, Edson Nery da Fonseca, Luiz Costa Lima, João Câmara Filho, Antonio Paulo Rezende e Roberto Martins. O evento é promoção do Laboratório de Estudos Avançados de Cultura Contemporânea, sediado no Departamento de Antropologia da UFPE, e sob a coordenação do professor Antonio Motta.

Os temas abordados sinalizam um seminário de leitura crítica ou dialética da obra freyriana: Confrontos, imagens & contra imagens, o elogio do congraçamento. O título – “Outros Gilbertos” – acentua essa idéia de que há uma pluralidade no autor ainda pouco visitada, e nos subtemas, indica-se o caminho de uma abordagem que ultrapasse a simples homenagem ou o ataque – como quase sempre tem sido na província do Brasil.

Gilberto Freyre é uma espécie de esfinge com atributos de ninfa Eco. A sua bibliografia séria tende a crescer a partir deste ano do seu centenário como nunca o foi antes. Até este momento o estudo mais alentado é o conjunto de ensaios que tenta estudar a sua “ciência, sua filosofia e a sua arte”. Todo ele organizado e dirigido sob as vistas do próprio homenageado, do mesmo modo com a sua única biografia.

O ano Gilberto Freyre foi um ano de seminários e filmes mais do que de livros. O próximo deve ser aquele em que começam a ser revelados novos Gilbertos e revalorizados outros deixados em segundo plano. Quando a Topbooks lançar os diversos títulos que tem em preparo o país, finalmente, irá perceber que Gilberto Freyre é mais do que o autor de Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso. Da mesma forma quando Guilhermo Giucci publicar a sua biografia um Gilberto mais nítido começará a aparecer sobrepujando a “aura” que criou em torno de si e que continua a ser alimentada.

Ao atingir o status de clássico do pensamento brasileiro, Gilberto Freyre precisa ser revisitado. Somente com a leitura cuidadosa e sistemática do que produziu e a crítica dos seus métodos e conteúdos encontrar-se-á o autor em sua verdadeira dimensão.

A primeira qualidade em um grande autor moderno que consiga erigir-se mito ainda em vida é a da contradição. Ou dizendo melhor: da capacidade de fazer-se elogiado ou atacado com paixão, de manter-se evidência. Mestre sem discípulos, Gilberto Freyre é um desses nomes. Pela riqueza dos seus trabalhos não seria exagero afirmar que se torna tanto mais forte quanto mais críticas e leituras novas motivar.

Em uma semana, três seminários distintos foram programados no Recife e em João Pessoa. A UFPB, a Fundação Joaquim Nabuco, e agora a UFPE (que, antes, já realizou outro encontro que teve Freyre como foco das atenções), sob aspectos distintos, revisitam-no.

Este que promove o Núcleo de Estudos Avançados de Cultura Contemporânea tem, entre outros méritos, o de fazer com que estudantes e professores se voltem para estudar uma das suas obras menos conhecidas. O livro Além do Apenas Moderno - Sugestões em torno de possíveis futuros do homem, em geral, e do homem brasileiro, em particular é certamente um dos mais ambiciosos, do ponto de vista teórico que ele produziu.

Concebido no final da década de sessenta e divulgado amplamente na seguinte, é nesse estudo em que a idéia de tempo tríbio - que nunca foi, de fato, enfrentada pelos que o analisaram - se reafirma com todas as suas cores. Não há dúvida de que o homem Gilberto Freyre tem despertado mais atenção do que as suas teorias. Somente muito poucos trataram de discutir - para além dos seus temas - a articulação filosófica.

Quase sempre parafraseado – positiva ou negativamente - Gilberto Freyre precisa de uma calma, demorada e cuidadosa releitura. Um hábito muito seu de repetir-se e reiterar-se alcança em Além do Apenas Moderno máxima evidência. À falta de leitores críticos, ele muitas vezes era o responsável pela validação do que propôs, como quando diz, nesse livro:

“Não se pode pretender, em Futurologia, que o tipo de vida adequado a um abiente seja imposto imperialmente a outro ambiente, destruindo nesse outro ambiente as relações saudavelmente ecológicas entre o homem e a natureza regional. É problema de engenharia social e de engenharia humana, antes de ser de Futurologia. Liga-se à concepção brasileira de validade já proclamada pela Sorbonne, de ‘Homem situado’.”

Ou de modo ainda mais flagrante nesta outra:

“Quem hoje fala em futuro, sabemos que fala num tempo que já é quase presente, tal a rapidez com que estamos passando de presente a futuro – admitindo-se a separação convencional de um do outro – com a energia nuclear e a automação: uma rapidez revolucionária. Nunca mais do que hoje o homem viveu tempo aparentemente só moderno já tão alcançado pelo pós-moderno e ainda influenciado pelo pré-moderno - na sua plenitude.”

A modernidade de Gilberto Freyre era desse tipo, de cruzamentos e intersecções, hamletiana, pendular. Quando chamou ao movimento que liderou na década de vinte no Recife, de regionalista, tradicionalista e, ao seu modo, modernista, não poderia ter sido mais exato.

A leitura que fez do moderno sempre considerou a necessidade de preservar, de conservar, de manter. De renovar, também, obviamente. Mas, de uma renovação que não demolisse certa razão mitificadora de si mesmo e do passado, com uma extraordinária riqueza de detalhes. Nunca no Brasil um autor conseguiu reescrever de forma tão poética a história prosaica e cotidiano de homens, mulheres e crianças de outro tempo.

Tempo tríbio, homem situado, lusotropicalismo. O que são? Poderia perguntar um leitor não iniciado nos mistérios freyrianos. Seminários como o que se organiza a partir de amanhã devem procurar responder.

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Jornal do Commercio
Recife - 04.12.2000
Segunda-feira