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Timor Leste

Observávamos há pouco como guerras prosseguem grassando pelo mundo inteiro, apesar das proclamadas intenções de paz dos países que decidem. Hoje, falaremos de um caso típico de final feliz, ou que, pelo menos, tem boas condições de ser feliz, que é o de Timor Leste. O Brasil tem grande responsabilidade no desfecho do esforço de libertação e pacificação dessa ex-colônia portuguesa do Extremo Oriente, pois estão lá soldados brasileiros integrados à missão da ONU em Timor Leste, que prepara o castigado território para sua total emancipação; e um diplomata brasileiro, Sérgio Vieira de Mello, chefia a administração de transição, sob a égide da ONU.

Timor Leste, que ocupa a parte oriental da ilha de Timor, cuja banda ocidental era colônia holandesa e hoje integra a Indonésia, foi uma das mais antigas possessões lusas, do tempo em que Portugal ainda não havia sucumbido ao obscurantismo inquisitorial (que lhe custou um atraso de 400 anos), e disputava mares e pontos comerciais com a Espanha e a Holanda. A Inglaterra era uma ilha de pouco significado na globalização da época. Não havia o Império Britânico.

Em 1975, em conseqüência da Revolução dos Cravos, que, no ano anterior, tirara Portugal de longa hibernação e isolamento internacional, Timor Leste se preparava para proclamar sua independência, negociada com a metrópole, quando a Indonésia decidiu invadir e anexar a parte oriental da ilha de Timor. Nenhum país dos que contam atreveu-se a contestar a resolução do ditador Suharto. Estava-se em plena Guerra Fria e os Estados Unidos, a Europa, a Austrália, vizinha de Timor, precisavam dos bons préstimos de Suharto contra a onda comunista que vinha da União Soviética e da China. Somente mais de vinte anos depois, quando as potências ocidentais não precisavam mais de Suharto, a situação começou a mudar para os timorenses orientais.
A Indonésia não pretendia entregar a banda leste da ilha. Mesmo depois de um plebiscito em que os timorenses orientais, em 1999, decidiram pela independência, as milícias pró-Indonésia, com o apoio do exército indonésio, deram um banho de sangue no antigo território luso. Correspondentes de guerra comentam que nunca tinham visto algo parecido: quarteirões inteiros de casas saqueadas e incendiadas, massacre de civis, pilhagem indiscriminada e sem controle. Mas, finalmente, os indonésios se retiraram, o que possibilitou a entrada em cena da missão das Nações Unidas. Os grandes heróis dessa resistência são Xanana Gusmão, líder guerrilheiro que passou anos preso em Jacarta, capital da Indonésia, e o bispo católico de Díli, a capital, monsenhor Ximenes Belo (ambos partilharam o Prêmio Nobel da Paz do ano passado).

Gusmão não quer ser candidato a presidente do novo país, nas eleições marcadas para agosto. Importante para a comunidade dos países lusófonos é que, em recente entrevista, ele afirmou que a língua portuguesa será o idioma oficial de um Timor Leste independente, junto com a língua nativa tetum. Com os anos de ocupação indonésia, foi-se impondo a língua oficial do arquipélago e hoje só pessoas mais velhas falam português. O Brasil está dando consultoria para a organização do Poder Judiciário de Timor Leste. E, diz o ex-líder guerrilheiro, "em tempos de economia globalizada, a Ásia tende a se tornar um forte centro econômico". Atenção, empresários!




Jornal do Commercio
Recife - 03.03.2001
Sábado