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COMPORTAMENTO
Músicas que falam sobre tapas em mulheres geram polêmica

por MARCIA CEZIMBRA E WALDOMIRO JÚNIOR
Agência Globo

Levar um tapa dói ou não dói? Eis a questão que divide este Carnaval na Bahia e no Rio. A polêmica começou com o sucesso de duas canções: o funk carioca Tapinha e o axé baiano Tapa na Cara. No Rio, o funk repete o refrão: "Um tapinha não dói..." Na Bahia, a cantora Daniela Mercury baniu do seu repertório o axé Tapa na Cara. A letra, de Alex Xela, líder do grupo Pagod'art, conta uma relação sexual em que a mulher pede ao homem um tapa na cara para sentir prazer. O bloco de Daniela é reforçado por outro ícone do carnaval baiano, Margareth Menezes, que protestou contra o axé, dizendo que a letra é preconceituosa e incentiva a violência contra mulheres. “Não canto essa música! Não é por moralismo e nem elitismo. Para muita gente, as imagens traduzidas através da música podem ser confundidas com a realidade e levar a deturpações de comportamento”, diz Margareth.

Do outro lado da folia estão Ivete Sangalo e Carlinhos Brown. Os dois já estão cantando a música e prometem transformar Salvador no palco de uma coreografia na qual os homens fingem dar tapas na cara das mulheres. “Quem tem que dizer o que a gente deve cantar é o público. Todas as vezes que eu sentir que o povo quer ouvir Tapa na Cara, vou cantar a música”, diz Ivete.

Surpreso com a polêmica, Alex Xela não vê nada demais em transformar sua experiência sadomasoquista em axé. “Em matéria de violência, tem gente por aí fazendo coisa muito pior. Os roqueiros, por exemplo. Há problemas bem mais importantes para a gente se preocupar no Brasil, como a situação da saúde e da educação”.

Na dança do funk carioca, os tapas são no bumbum. A música Tapinha, dos MCs Naldinho e Beth, tem uma coreografia na qual as garotas rebolam enquanto se dão tapinhas nos quadris e cantam "um tapinha não dói...". Nos 20 bailes semanais promovidos pela empresa Furacão 2000, no Rio e em São Paulo, a música leva milhares de jovens ao delírio. Segundo a autora, a letra foi inspirada nas crianças da Rocinha, onde a MC Beth é professora. Lá, ouviu histórias de crianças que provocavam seus pais quando apanhavam, repetindo, desafiadoramente, que os tapas não doíam.

“O tapa baiano é preconceituoso e não deve ser tocado. Estou com Daniela Mercury. Mas no tapinha do Rio não tem maldade. É uma brincadeira, inspirada nas crianças da Rocinha, que apanham e dizem que não dói. Eu, quando era criança, dizia isto para minha mãe toda vez que ela me batia. Doía, mas eu dizia que não doía, só para irritá-la. Toda criança faz isso. Eu canto e danço o Tapinha, mas o axé é um desrespeito à mulher”, diz Adriana Bombom, ex-paquita e dançarina funk.

POR OUTRO LADO... – Carnaval à parte, as músicas sobre os tapas em mulheres e crianças refletem a realidade trágica da violência crescente contra mulheres e crianças no país. Um levantamento do Instituto de Estudos Religiosos (Iser), feito no ano passado, constatou que as agressões contra mulheres quase dobraram nos últimos nove anos: passaram de 17.596 para 34.831, a maioria de queixas de lesões corporais dolosas. Quanto às crianças, o Brasil foi um dos países denunciados pelo relatório anual da Anistia Internacional no ano passado por casos alarmantes de violência contra menores.

Diante do retrato cantado da violência, até os psicanalistas se dividem. Nahman Armony, professor de pós-graduação de psicologia da Universidade Santa Úrsula, considera chocantes essas coreografias de tapas e bofetadas e concorda com Daniela e Margareth. “Essa pretensa dança na qual se encenam tapas do homem na cara da mulher reafirma o direito machista de se bater em mulher, o que, na minha opinião, deve ser combatido”.

Para o psicanalista Carlos Saba, no entanto, os componentes sadomasoquistas de uma relação sexual, como os tapas na cara com o consentimento dos dois parceiros, fazem parte do jogo lúdico erótico.

“Os tapas na cara só viram um problema patológico quando, por exemplo, o casal só consegue atingir o orgasmo desta maneira, batendo ou apanhando. Daniela Mercury baniu o axé porque não consegue ver erotismo nesse jogo, ao contrário de Ivete Sangalo”.

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Jornal do Commercio
Recife - 25.02.2001
Domingo