Na sua origem, os blocos de carnaval eram manifestações genuinamente familiares. Afinal, com eles as recatadas senhoras e mães de família podiam participar e usufruir de uma festa tradicionalmente profana.
O Bloco da Saudade – ícone atual das recordações dos antigos carnavais – parece ter realmente bebido na fonte da tradição. Além de cantarolar marchas-de-bloco, esbanjar fantasias vistosas e ter sua direção exclusivamente composta pelo sexo feminino, a agremiação abre alas também para pais, mães e, por acréscimo, toda a filharada.
O estudante de jornalismo Amilcar Bezerra, 24 anos, filho mais velho de Bel, a diretora-presidente do Bloco, nasceu apenas três anos anos depois do abre-alas azul e encarnado em forma de máscara e o acompanha desde então.
“Saio desde os oito anos. Antes disso, não chegava a ir para as ruas junto ao bloco, mas meus pais sempre me fantasiavam de azul e vermelho”, conta.
Depois dos oito, os anos seguintes do Carnaval de ‘Miquinha’ (uma maneira de diferenciá-lo de seu pai, que tem o mesmo nome), foram todos recheados de Valores do Passado, Último Regresso e O Bloco da Vitória (alguns dos hits tocados pela orquestra de pau e cordas). “Costumo sair todos os anos”, diz.
Com ele e seu irmão Ricardo, 21, uma legião de mais ou menos 20 pessoas compõe a chamada ‘nova geração de saudosos’. “São os filhos dos outros componentes mais ‘coroas’ e os nossos amigos”, explica Amilcar.
CORUJICE – Os pais dele, diga-se, inflam o peito e se gabam do ‘filhote-folião’ que, ao que tudo indica, já começa a seguir os passos dos pais e, quem sabe no futuro, tome a frente do abre-alas. “Naturalmente nossos filhos valorizam a cultura local. Seria muito estranho se eles gostassem de música baiana ou pagode. Em vez de saírem no Recifolia, como muita gente da idade deles, eles desfilam conosco no Carnaval”, orgulha-se Bel. “Nós nunca os forçamos à nada, mas eles acabaram gostando de tudo isso. Acho que é natural”, acrescenta Amilcar (o pai).
Outro motivo de grande orgulho para o casal Bel e Amilcar é a mais nova versão do Bloco da Saudade: o Bloquinho da Saudade. Formado por alunos de uma escola primária, a ‘agremiação-mascote’ desfilou este ano pela segunda vez. A saída aconteceu no Recife Antigo, junto à ‘agremiação-matriz’. “É emocionante”, afirma Bel.