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ARTIGO

Recordando São Caetano

por CELSO RODRIGUES

PIEDADE – Esta mensagem é para Milton Brito. De você, meu amigo, recebo uma comunicação que me agradou. De um certo modo. Ex-líder sindical, com Gilberto Azevedo, José Raimundo, Darcy Leite, Ruy Carlos de Alencar, Fausto Nascimento e Ruy Alencar, entre tantos nomes respeitáveis, e tão-só a prática do sindicalismo de resultados, pois marcante de seriedade nas décadas 50 e 60, você foi um daqueles contestadores da Província, na ditadura militar, enquanto do outro lado a “pelegagem” de Cláudio Braga explorando uma categoria fortíssima, e depois do golpe de 64, explorando o próprio Jango Goulart, sua vítima maior no nostálgico exílio do Uruguai.

Enquanto Brito me confessa, até com saudades, que ficou na sua alma o caráter da política sindical e partidária que praticam companheiros tão coerentes e dignos, nunca deixou de reuni-los, em seu escritório, quase todas as sexta-feiras recifenses, para recordar tudo o que aconteceu e, ao mesmo tempo, rejeitar esse mundo que elimina, mais do que nunca, a Paz e a fraternidade. Então, resolveu ele que vai se mudar, praticamente, para um recanto bucólico de São Caetano; e lá, com seus livros, com seus discos e com seus pássaros, e poucos amigos, suportar inevitáveis desafios dos anos de vida útil que ainda lhe restam. Exilar-se diante da violência da cidade grande, das notícias diárias que machucam seus sentimentos, além do cotidiano político em que certas figuras degradam os mandatos populares, deformando a beleza da arte de fazer política para o povo. Com decência, caráter e vergonha.

Decisão aceita, caro Brito. Vou perder aqui, na bela Recife, um cantinho repousante no qual, semanalmente, ouço mais do que falo. E São Caetano é parte da minha infância, pertinho de Caruaru, noites gostosas, festas religiosas e profanas com mocinhas projetando a beleza de madeixas alouradas. E o amor declarado pelo alto-falante da própria igreja, acompanhado da voz de Augusto Calheiros. E acontecia o primeiro encontro numa barraquinha de prendas. Será que a pequena cidade continua assim, ou uma Caruaru cordial que não existe mais, como vizinha que cresceu demais, deformou os costumes da cidade mãe? Violência adoidada, selvagem. Infelizmente, Caruaru merece o conceito de José Saramago: “Hoje, a cidade cresce tão rapidamente que deixa para trás, sem remédio, as infâncias. Quando a criança se prepara descobrir as terras, elas já estão longe, e é uma cidade inteira que se interpõe, áspera e ameaçadora. Os paraísos vão-se afastando cada vez mais. Adeus, fraternidade. Cada um por si.” Em meio a tudo isso, Gandhi que não me sai da cabeça: “A força de um homem e de um povo está na não-violência. Experimentem.” E do mesmo Gandhi: “O silencio é um grande auxílio para quem, como eu, está em busca da verdade.” É mesmo verdade, Milton Brito: só queremos a Paz e a fraternidade. E nunca a desigualdade.

2) – Recebo de Havana belas guayaberas que me fazem bem. Presentes de Magda e Eurico Reis. Me vem à lembrança que Waldemar Borges (deputado estadual progressista, cassado em 1967), vestia a guayabera. O que ainda faz imortal Gabriel García Márquez. Usá-la vou, com apreço e amor ao patriotismo de Cuba. Eurico Reis me diz, em carta, o que significa a guayabera para o grande povo da ilha: “A guayabera é uma camisa de homem desenhada para ter uma quantidade de rendas, quatro bolsos e vários botões. Essa vestimenta surgiu em Cuba precisamente na província de Santo Espírito. Seu nome original foi yayabera quer dizer, de Yayado, rio que corta a cidade de Santo Espírito, mas, com o passar do tempo, se foi utilizando guayabera como nome único e definitivo. Vestimenta muita usada no Caribe é um símbolo tipicamente cubano. A guayabera como o tempo vem sofrendo algumas transformações sem fugir do seu desenho inicial: o tecido de algodão em cor branca na sua origem mudou e se usa também tecidos sintéticos em diferentes cores acrescentados e bonitos bordados. Já não é traje exclusivo de homem; já há guayaberas em blusas e vestidos. Para os cubanos a guayabera expressa alegria e se usa com formalidade nas grandes ocasiões. Foi feita para o clima quente e tem sobrevivido por seu caráter prático e cômodo.”

3) – A Colônia de Caruaru vai homenagear, dia 10 de novembro, no Restaurante Chic-Chic, a família Cléo Nicéas.

4)– Dentro de mim, agora, “há um profunda discordância, porque hoje é sábado. Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo. Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias. Então, é esquecer a discordância: viva o sábado! Apesar das inquietações do poetinha Vinicius de Moraes. E eu vou indo, programa há muito agendado, e assim deverá acontecer, penso eu: cinco horas, precisamente, e o amanhecer me chegando com louca vontade para o reencontro e o diálogo. Luminosa manhã! Me acaricia e me beija, pois estou ouvindo pássaros e lendo Fernando Pessoa. Neste sábado especial. Porque hoje é sábado, a Praia de Piedade me chama e me mostra, com a realidade da beleza de certas mulheres, porque Deus fez do sábado o Sexto Dia da Criação. O sol me obriga a ocupar velhos espaços nas areias quentinhas para me trazer de volta eternas evocações. Tudo aquilo que ficou da juventude alegra ou tortura, a vida toda. Porque hoje é sábado, e logo chegue o meio-dia, a minha boca deverá se abrir para o sabor do primeiro uísque, e meus ouvidos confirmando que existiu, faz anos e anos, um homem e seu nome – Mozart – não deixou que se perdesse o esplêndido engenho, que é a cabeça humana, concebida por Deus.

Celso Rodrigues é jornalista (celso87@globo.com)


Jornal do Commercio
Recife - 03.11.2001
Sábado