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EXPEDIÇÃO
Carrancas afastam mau-olhado nas viagens feitas pelos rios

JUAZEIRO, BA – Carranca é cara feia, carregada, mistura de homem com bicho, mas ocupa um lugar de extrema importância na arte popular e nas crenças do rio São Francisco. Na proa das embarcações, essas exóticas esculturas em madeira têm como principal objetivo afugentar o azar e o mau-olhado.

Ao longo de seu percurso pelo rio São Francisco, a Expedição Engenheiro Halfeld conheceu alguns artistas que, além do rio, estão conquistando galerias internacionais para exposição de suas obras. É o caso de Adalberto Dias Ferreira, 70, o ‘Seu Nenzinho’, de Bom Jesus da Lapa (BA), cujos trabalhos ganharam o mercado holandês. Ele passa até um mês trabalhando uma única peça. Na Holanda, suas carrancas também são alugadas para decoração de eventos. Em Brasília, as peças são vendidas a R$ 300.

Ainda criança Seu Nenzinho aprendeu a fazer carrancas só de observar as embarcações. “Eu era menino. Ficava na beira do rio. Passavam os barcos com carrancas e eu via os modelos, as cabeças. Tinham vários tipos, a marajoara, a risonha, que parecia um cavalo, a amaralina e a zuleica, que tinha um penacho na cabeça. As madeiras eram o buriti e a barriguda. Depois, aperfeiçoei-me com a Imburana, que é macia e não tem muito nó”, disse o carranqueiro.

Uma outra carranqueira de renome é a ex-cantora da Rádio Excelsior de Salvador (BA) Maria de Lurdes Gonçalves Lopes, 63. Ela aprendeu a arte quando passou cinco anos morando no vapor São Francisco, fugindo da Ditadura Militar de 1964. Hoje, mora em Pirapora (MG).

No vapor, dona Lurdinha Gonçalves, nome artístico, disse que conheceu o famoso carranqueiro Francisco Biquida Dy Lafuente Guarany. “Pedi a ele que me ensinasse a arte, mas ele se recusou. Disse que tinha aprendido com o pai, que não gostava de ensinar principalmente a mulher”, lembra a escultora, que decidiu ficar observando de longe o trabalho de Guarany e aprendeu o ofício.

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Jornal do Commercio
Recife - 03.11.2001
Sábado

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