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O vinho e seus amigos

por FLÁVIA DE GUSMÃO

A paixão pelo vinho começa de forma insidiosa, como toda paixão que se preza. Ela se instala a partir de encontros casuais, nem sempre freqüentes, com esta que é uma das bebidas mais complexas e cativantes já elaboradas pelo homem.

No início, tudo não passa de um flerte, no qual a vítima aceita a presença inevitável de uma garrafa sobre a mesa. Em seguida, vê-se irresistivelmente atraído pela personalidade do seu conteúdo. Tudo fica mais grave quando o ser que está prestes a se apaixonar conhece outros na mesma situação: os amantes dos vinhos, uma espécie de confraria que se reúne sempre que pode em torno do prazer da degustação.

Uma paixão, ao que parece, contagiosa. As lojas de artigos para casa, que antes pouco se importavam com as seções reservadas para os acessórios necessários para uma boa degustação de vinhos, começam a aumentar seus estoques. O amante do vinho – seja ele um profissional ou um diletante – tem como característica a busca constante por tudo o que se relacione com o objeto de desejo: saca-rolhas, decantadores, termômetros, cortadores de cápsula, taças e mil e uma miudezas sem as quais seria possível, sim, beber o vinho, mas com as quais fica definitivamente melhor realizar o mesmo processo.

“Não sou nenhuma expert em vinhos, mas adoro descobrir cada dia mais sobre o assunto. Sempre que viajo, trago na bagagem algum acessório a mais”, confessa a advogada Giselle Martorelli, para quem o item mais adorado de sua coleção é um abridor de vinhos da marca Screwpull, uma maravilha inventada para acabar de vez com o vexame de se enroscar com uma garrafa de vinho para poder abri-la.

Virgínia Campos, promoter bissexta de badaladas festas, é outra wine-victim que, de vez em quando, percorre o circuito das lojas especializadas. Ela também faz questão de se incluir no rol das simpatizantes – e não das entendidas - no assunto.

A empresária Nadir Chalita até filosofa sobre sua ligação com o vinho: “Quanto mais pesquiso e bebo descubro que sei menos. Eu sou uma apaixonada pela vida e esta é uma característica de quem gosta de vinhos”. Cercada por uma infinidade de acessórios reunidos em sua muitas viagens, Nadir Chalita se diz uma zen-boêmia para quem o vinho tem um lugar de destaque à mesa.

APETRECHOS – Com a experiência acumulada em anos de dedicação ao vinho, o enófilo e presidente da seccional pernambucana da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho (SBAV), José Luiz Spencer, ensina os iniciantes a montar o kit básico do degustador. Segundo ele, a taça não precisa ser de cristal, mas precisa ser de vidro fino e transparente, para que se possa visualizar melhor as ‘lágrimas’ deixadas nas suas paredes. Essas ‘lágrimas’ ou arquetes indicam se o vinho é mais ou menos encorpado.

O cortador de cápsula evita que a rolha seja danificada, promovendo um corte mais rápido e uniforme da cápsula que a envolve. O processo seguinte, o de remover a rolha, é um dos mais importantes no processo de degustação. Para isso, ensina Spencer, é fundamental que a espiral do saca-rolha seja longa e fina.

O decantador é um recipiente de vidro para o qual se transporta os vinhos mais envelhecidos. Esses vinhos carregam uma borra natural, própria do tanino da uva, que deve ser removida antes da degustação. O decantador serve também para deixar que os vinhos mais jovens ‘respirem’ melhor e liberem seus aromas.

Um degrau acima na escala da sofisticação estão as bombas quer removem o ar de dentro da garrafa para que elas possam ser guardadas de um dia para o outro sem prejudicar muito o conteúdo. “O vinho deve sempre ser consumido quando aberto, guardá-lo sempre implica numa interferência indesejada, mas a remoção do oxigênio impede, temporariamente, a formação do ácido acético (vinagre)”, explica Spencer.

As adegas climatizadas são o sonho de consumo de dez entre dez enófilos que já estão em estágio avançado de paixão pelo vinho.É que esses equipamentos não saem nada em conta, mas significam o céu dos vinhos: temperatura sempre controlada em torno dos 16 graus centígrados e capacidade que varia entre 40 e 360 garrafas.

Quem não pode se dar ao luxo, tem sempre a opção de manter uma garrafeira que proteja os vinhos de inconveniências como calor, luminosidade e barulho.

“Nunca se guardam vinhos em lugares altos porque o calor sobe. Dê preferência a um canto escuroe fresco”, resume.

Casa dos Frios – 3421.1259/ Table Store 3325. 6742/ Empório da Cozinha- 3464.6413/ SBAV - 3467.6462

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Jornal do Commercio
Recife - 02.11.2001
Sexta-feira