O medo de dentista está com os dias contados: os consultórios odontológicos infantis mostram que diversão é a melhor receita para a prevenção
por JÚLIA NOGUEIRA
Histórias, personagens, lápis e papéis coloridos, um relógio em forma de pêra e uma cadeira que, de acordo com o gosto do freguês, pode virar foguete, avião ou disco voador. Parece desenho animado, conto de fadas ou simplesmente um fruto da fértil imaginação infantil.
Na realidade, essa é a visão do consultório da dentista e fonoaudióloga Flávia Dutra, que resolveu aliar criatividade e fonoaudiologia ao tratamento odontológico de crianças, jovens e adultos. Segundo ela, que também tem experiência como alfabetizadora, o ambiente adaptado e as histórias servem para distencionar os adultos e conquistar a confiança das crianças.
A idéia de aliar a fonoaudiologia nos atendimentos surgiu a partir da constatação de que a maioria dos tratamentos convencionais não leva em consideração as funções neurovegetativas (respiração, sucção, deglutição, mastigação e fonação) do paciente, que influenciam diretamente na forma de respiração, posição da língua e, conseqüentemente, na disposição dos dentes na arcada dentária. É justamente a partir da avaliação dessas funções que começa a primeira consulta. Só depois é que Flávia observa a questão das cáries e da forma como o paciente faz a escovação dentária.
A idéia de avaliar a situação de cada criança como um todo também está presente no trabalho de outros profissionais da cidade, a exemplo das clínicas especializadas Odonto Baby e Miscove .
De acordo com a odontóloga Sandra Fausta, da Odonto Baby, o principal truque é trabalhar em cima da prevenção e auto-estima da criança. Lá, o paciente é atendido por uma equipe multidisciplinar que avalia as condições de cada paciente.
As crianças também podem ler livros ou ver filmes didáticos que explicam como cuidar bem dos dentinhos e da saúde da boca, a porta de entrada do organismo. Um dos diferenciais da clínica é o seguro cárie zero, que garante a isenção de pagamento com obturações, caso a criança tenha cárie durante o período de tratamento regular.
Na Miscove, a novidade é que cada cliente ganha um pacote com escova, pasta de dente e fio dental para escovar os dentes quantas vezes quiser, sempre que for lanchar no Shopping Center Guararapes, onde a clínica funciona. De acordo com a proprietária Olga Barbosa, a clínica também dá atenção a um detalhe que agrada aos pais: o bolso.
A partir da necessidades da criança e das condições financeiras de cada família, os pais podem optar por três tipos de plano com uma quantidade variável de consultas por ano. Outro diferencial da clínica são as especialidades médicas não-comuns aos consultórios tradicionais, como ortopedia e nutrição. Avalia-se até mesmo a relação da coluna cervical com a boca e os hábitos de mastigação, além do uso do dedo e da chupeta. A respiração bucal também é observada.
Olga explica também que a associação de prevenção e saúde a alegria e diversão e fundamental. “Quanto mais lúdico for o ambiente, menos medo a criança tem”, diz. De acordo com a professora titular de odontopediatria da Universidade de Pernambuco (UPE), Aronita Rosemblat, a adaptação dos ambientes e consultórios em todas as especialidades médicas é fundamental para uma melhor inserção da criança.
A opinião dos profissionais é unânime quanto à importância da participação dos pais durante o tratamento e o encaminhamento precoce da criança ao dentista. Alguns pais ainda consideram o cuidado como exagero. Sandra Fausta explica que a faixa etária que mais sofre com a negligência é a de 0 a 3 anos (idade em que os primeiros dentinhos começam a nascer). “Já cheguei a atender crianças de até um ano e meio com cáries generalizadas. É a chamada cárie de mamadeira, resultante da má higienização após a ingestão de leite”, explica. Para Flávia Dutra, a postura dos pais é fundamental. “Eles devem estimular a imagem positiva e de saúde que o dentista representa. É importante não passar para criança os estereótipos e o velho medo da cadeira e da broca do dentista presente na geração deles”, diz ela.
NO DENTISTA AOS SEIS MESES – Um exemplo considerado como ideal pelos profissionais é o da empresária do setor de turismo Sandra Azevedo, 34 anos, mãe de Henrique Filho, de 3 (e nenhuma cárie), que freqüenta a cadeira do dentista desde os seis meses de vida. “A primeira consulta aconteceu por que eu queria que a dor do nascimento dos dentes dele fosse amenizada. A partir daí despertamos para a questão da higienização”.
Para ela, a participação durante as consultas é essencial. “As consultas a são importantes por que reeducam os pais para poderem ensinar aos filhos. Cada vez que vamos ao consultório aprendemos um pouco mais. Hoje mudamos os hábitos alimentares e já definimos com mais clareza o que Henrique leva na lancheira”, diz.
Para a agrônoma Maria Auxiliadora Ferraz, 40, mãe de Maria Clara (6) e Maria Sofia (4), a preocupação em encaminhar as filhas para atendimento odontológico também veio cedo. As meninas têm consultas regulares desde um ano de idade. ”Me senti atraída pelo método de contar histórias, pois elas tiveram mais facilidade de se soltar. A adaptação foi tanta que toda vez que acaba a consulta eles não querem ir embora”, diz. O esclarecimento sobre a importância do acompanhamento foi dado pelos pediatras, mas uma lembrança da própria infância foi determinante na decisão de Auxiliadora. “Quando era criança eu tinha muito medo de ir ao dentista e não queria que minhas filhas passassem pelo mesmo problema que eu.”
Serviço
Flávia Dutra - 3241.7764
Odonto Baby - 3075.9262/3221.2849
Miscove - 3464.2484