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LIVROS
Capoeira angola contra neuroses

Em A Liberdade do Corpo, João da Mata ressalta o caráter terapêutico dessa expressão cultural contra as ditaduras do cotidiano

por BRUNO ALBERTIM

Com A Liberdade do Corpo (Editora Imaginário), seu último livro, lançado recentemente no Recife, João da Mata, escritor pernambucano radicado no Rio de Janeiro, renova seu fôlego para politizar os atos do cotidiano. Para ele, corriqueiras relações de trabalho, estudo, familiares e mesmo amorosas e sexuais funcionam hoje como as principais fontes de opressão do dia-a-dia. “Essas relações assumem hoje o papel que já coube a um Estado autoritário”, diz ele, que reforça, no volume, o poder terapêutico de uma expressão da cultura brasileira contra essas formas de poder. Da Mata, somaterapeuta há 12 anos, diz que a capoeira angola – o misto de dança e luta que surgiu nas senzalas do Brasil – tem a capacidade de destruir os condicionamentos físicos que o poder imprime nos corpos de suas vítimas sutis.

Partidário das idéias do psicanalista Wilhelm Reich, para quem as neuroses não são apenas mentais, mas também corpóreas, da Mata diz que a capoeira, com seus movimentos criativos e lúdicos, tem a capacidade de destruir o que o austríaco classificou como couraças. “São tensões musculares crônicas que refletem no corpo a presença do autoritarismo social”, explica. Para Reich, a neurose tem base sobretudo numa repressão sexual. Em A Função do Orgasmo, ele demonstra como o orgasmo sexual pleno e satisfatório produz, além do prazer, um reequilíbrio da energia vital humana.

“Quando se tem uma sexualidade constantemente reprimida, essas pessoas, ao abrirem mão desse prazer fundamental, vão se submetendo a prazeres menores, como o de ter em vez de ser”, discorre. A Soma, terapia coletiva da qual João é coordenador em vários Estados, criada pelo psicanalista Roberto Freire a partir das idéias de Reich, tem como razão a eliminação das neuroses por meio da quebra dessas couraças.

Ao permitir o enfrentamento ritualístico de seus colegas de roda, a capoeira angola ( mais teatral que a modalidade conhecida como regional ) oferece também o exercício da agressividade, importante para o equilíbrio psíquico. “Uma agressividade acumulada, reprimida por convenções sociais, acaba resultando em atos de violência”, observa o escritor-terapeuta. Outro caráter libertador da angola, ressalta, é sua própria tradição histórica. “Antes de se configurar como modalidade de academias, ela surgiu como forma de libertação de uma estrutura escravagista.”

TENSÕES – O corpo sintomiza as neuroses. Um pélvis muito enrijecida, que resvala para uma incapacidade, por exemplo, de dançar, pode denotar uma forte repressão sexual. “Daí, pode-se encontrar problemas como ejaculação precoce, dificuldade de ereção, vaginismo (tensão na musculatura da vagina que impede a penetração)”, diz. “A ansiedade e a raiva resultam das inibições do prazer sexual”, observa. Outro tipo comum: a tensão ocular. “Há pessoas que mantém a testa permanentemente contraída, a boca muito travava.”

Como responsáveis pela renovação diária das neuroses, o escritor atira para vários e conhecidos lados, e não faltam farpas para a família. “A família, nos moldes em que mais se apresenta hoje, é o instrumento de um processo neurotizante, reproduz uma cultura repressiva, discriminatória. É preciso criar novos paradigmas”, diz. Outros alvos: a escola, etiquetas sociais, o amor. “Boa parte dos casamentos se baseia na idéia de complementariedade, um vai completar o outro. Isso é impossível, só gera neuroses. Quando essa relação acaba, essas pessoas perdem a muleta e sua vidas acabam. O amor deve ser suplementar: é necessário, fundamental, mas os amantes estão autônomos e inteiros na relação”, diz.

E é na cama que o poder também se infiltra. “Amantes costumam obrigar seus parceiros a realizarem escolhas, como entre a profissão e a relação”, diz. Mas nem toda forma de poder é saudável? “Sim, o poder de uma pessoa ser mais bela que a outra, ou mais sábia”, relativiza.

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Jornal do Commercio
Recife - 28.10.2001
Domingo