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OVERTRAINNING
Mania de malhar prejudica a saúde

por ANTÔNIO MARINHO
Agência Globo

A menos de dois meses do verão, especialistas em medicina do exercício e professores de educação física estão preocupados com um problema que ameaça os alunos de academias de ginástica: a síndrome do overtraining ou supertreinamento. E esse vício ocorre, em parte, devido à produção de endorfinas, os hormônios que trazem sensação de bem-estar e são liberados no período de treinamento. Mas tanto prazer com a atividade física tem um preço. Passar horas malhando é tão prejudicial quanto não fazer nada. Esse hábito aumenta a freqüência cardíaca, causa perda de apetite, náuseas, insônia, mau humor e lesões repetidas.

Segundo o endocrinologista e professor de educação física Oswino Penna, mais que o excesso de exercícios, o overtraining se caracteriza pelo treinamento inadequado. “O que é excesso para alguns pode não ser para outros. Os sintomas do supertreinamento se manifestam de forma leve, moderada ou grave e às vezes a pessoa nem percebe. O diagnóstico é difícil. Antes era um problema somente observado em atletas, mas com o modismo da malhação em academias o número de casos tem aumentado”, diz Penna.

Segundo Penna, os riscos de sofrer overtraining são maiores em pessoas que se alimentam e dormem mal. “Isso piora ainda mais os sintomas”, diz. Para não correr esse risco, o ator Rodrigo Santoro prefere atividades ao ar livre. “Sempre pratiquei esportes e gosto de surfar, correr, pedalar, andar de skate e jogar futebol. Vou à academia só de vez em quando, para fazer musculação. Não quero corpo hipertrofiado”, diz.

Também a atriz Bárbara Borges gosta de se exercitar de forma moderada. ”Sempre dancei e já fiz capoeira. Na academia, prefiro as atividades aeróbicas, como tae-bo e street dance, ou ginástica localizada e alongamento. Não gosto muito de musculação. Acho meio monótono”, comenta Bárbara. Já a atriz Fernanda Nobre prefere as aulas de ginástica localizada e de spinning. “Na infância, comecei a estudar balé clássico, mas depois deixei. Hoje, meus horários são imprevisíveis e vou à academia apenas para manter a forma. É ótimo para melhorar a disposição. Mas não tenho uma rotina de treinamento”, conta.

O ator Luiz Fernando Guimarães diz que se exercita no seu limite. “Há semanas em que pratico atividade física de segunda a domingo, mas não treino quando estou cansado ou mal alimentado. No Rio, faço trabalho aeróbico e musculação em academia. O importante é não ultrapassar o limite. E não preciso passar horas na academia para me sentir bem. Quando sobra tempo, gosto de nadar. Não sou atleta e não estou me preparando para competições”, diz ele.

A atriz Mônica Carvalho evita os excessos e segue o treinamento programado pelo seu personal trainner, na academia. “Antes fazia musculação todos os dias, mas aprendi que os músculos precisam de descanso. Hoje não tenho horário fixo para malhar e procuro exercitar mais as pernas. Também faço esteira e transport, que simula a subida em escadas ou corrida em trilhas.”

O médico americano Brian Sharkey, especialista em medicina do exercício e autor de Condicionamento Físico e Saúde (publicado pela Editora Artmed), chama a atenção para outro problema decorrente do supertreinamento. ”Esse hábito pode levar ao estresse, que reduz a resistência. Os atletas de todos os níveis parecem propensos ao supertreinamento. Crescemos acreditando que sem dor no exercício não existe ganho”, acrescenta.

Os médicos explicam que o supertreinamento interfere ainda na produção de dois hormônios: o cortisol e a testosterona. O cortisol, produzido nas glândulas supra-renais, aumenta quando o corpo está sob estresse. Já a testosterona diminui com o excesso de atividade física. Penna explica que o tratamento do overtraining requer repouso relativo, boa nutrição e mudança no estilo de vida. “Uma das piores conseqüências do overtraining é a depressão do sistema imunológico, que deixa a pessoa mais vulnerável a infecções. Nunca se deve praticar exercícios por conta própria. E os melhores horários são de manhã ou à tarde. À noite, há um excesso de cortisol na circulação e isso é prejudicial ao organismo”, alerta.

PULSAÇÃO – O médico Brian Sharkey diz que um dos índices para diagnosticar o supertreinamento é a pulsação. Ele diz que a pessoa deve medir a freqüência do pulso diariamente por 60 segundos, pela manhã, antes de se levantar. E deve fazer a média das freqüências diárias. Quando a pulsação da manhã está cinco ou mais batidas acima do normal, deve-se procurar um médico para saber se é sintoma de overtraining.

Verifique o seu peso diariamente pela manhã, antes do café. Faça a média diária. Uma perda de peso rápida ou persistente pode indicar má nutrição, pouca reposição de líquidos ou fadiga em excesso. Outra dica é medir a temperatura do corpo diariamente pela manhã, durante uma semana, para saber o normal. Sintomas de febre pode ser decorrente de uma infecção. Um último sintoma do problema podem ser tédio, fraqueza, dores articulares, urina escura ou concentrada e pele lívida. A reação de estresse é normal quando se prepara um atleta para o esforço máximo, mas pode ser prejudicial se ocorrer com freqüência.

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Jornal do Commercio
Recife - 28.10.2001
Domingo