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APRENDIZADO
Curso, livro ou Web?

Como é que os profissionais da Informática aprendem seu ofício? Os cursos técnicos são importantes? Ou basta procurar as informações em livros especializados e na Internet?

por BRUNA CABRAL
bruna@jc.com.br

Em vez de aprender em salas de aula e com professores, usar curiosidade, persistência, paciência e um certo espírito ‘fuçador’. Foi nessa troca que apostou o gerente de Design do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), H. D. Mabuse, como é conhecido José Carlos Arcoverde Jr., quando decidiu aprender Informática, aos quinze anos de idade, sem ajuda de ninguém. Ele conta que começou em casa, “nos idos da década de 80”, tendo como ‘objeto de estudo’ um computador de 8 bits, que rodava DOS, sistema totalmente controlado por comandos de texto, que não tinha nada de “amigável” ou “intuitivo”, como costuma-se dizer sobre os softwares atuais.

A partir daí, Mabuse foi ‘formatando-se’ sozinho. Passou a testar vários softwares e buscava entender o funcionamento de equipamentos. Mas foi na década de 90 que ele descobriu seu mais importante ‘mestre’: a Internet. “Há informações sobre toda e qualquer coisa na Rede”, garante. Nessa mesma época, decidiu conciliar a Informática com o design, outra área à qual sempre havia se dedicado – também se valendo da filosofia ‘faça você mesmo’.

“Lembro que consegui vários softs de paginação, como o Ventura, e comecei a explorar cada recurso”, diz. Daí para os programas de criação gráfica mais avançados foi um pulo. “Depois que você entende a linguagem, tudo fica mais fácil”, garante Mabuse, que, além de nunca ter feito nenhum tipo de curso de computação, freqüentou a faculdade por apenas três dias. O curso? Jornalismo. “Vi logo que não era o que queria.”

O webdesigner autônomo Cleofas Marques Ferreira, 21, demorou um pouco mais para fazer descoberta semelhante. Aos 13 anos, depois de ter contato com um computador pela primeira vez, decidiu fazer um curso de Windows 3.1., mas abandonou. Tentou outras duas vezes, sem sucesso. “Não tinha paciência. Era mais produtivo quando estava sozinho com a máquina”, conta. Hoje, ele se diz um autodidata convicto. “Não tem graça receber tudo de mão beijada. Gosto de quebrar a cabeça tentando, só para sentir o gostinho da vitória”, afirma. “É algo que tem a ver com ego, com realização pessoal mesmo.” Esse amor pelos ‘desafios digitais’ já lhe rendeu vários ‘troféus’. São dezenas e dezenas de CDs cheios de programas que usou uma única vez, “só para testar”, e deixou de lado, após “dominá-los”.

Já para Carlos Alberto Salgueiro Silva, 23, responsável pela área de Rede e Segurança da Procenge, é a ocasião que faz o autodidata. “O mercado de Informática exige atualização de conhecimento muito rápida. Se os profissionais não forem auto-suficientes, jamais sairão da sala de aula”, afirma. “E, desse jeito, não há bolso nem chefe que agüente.” Apesar de ter feito curso de Informática, ele garante que a maior parte do que usa em seu dia-a-dia foi adquirido na Internet. “Dedico pelo menos trinta minutos do meu dia à navegação.” E se aparece uma dúvida durante o expediente? Ele não titubeia. Vai a um site de busca na mesma hora. O Google, em 90% dos casos.

“A prática mostra que é essencial ter capacidade para resolver problemas sozinho”, endossa o administrador de redes Sandro Gomes Rodrigues, 22, mais um dos que acreditam que a melhor maneira de aprender a lidar com computadores é ‘colocando a mão na massa’. Ele fez o curso de eletrônica da antiga Escola Técnica Federal, mas só foi entrar em contato com os PCs quando foi trabalhar numa loja de equipamentos e acessórios. “Aproveitei para ler todos os manuais que via pela frente. E ainda visitava as páginas dos fabricantes.”

Depois de já ter adquirido uma certa intimidade com hardwares, foi que ele ouviu falar no Linux. Sem pensar duas vezes, instalou o sistema em casa e se empenhou em ‘conhecê-lo’ melhor. “Na época, não havia cursos de Linux na cidade”, conta. “O jeito foi quebrar a cara e aprender.”

O mesmo aconteceu com o designer e criador de jogos Saulo Dourado, que contou somente com sua determinação quando precisou aprender a usar o Director, software de criação de games. “O mercado pede que você se atualize, mas os cursos não acompanham o ritmo”, afirma. O resultado é que os certificados conferidos por eles têm prazo de validade muito curto. “Num dia você aprende sobre determinada tecnologia e, dois meses depois, aquilo já não vale mais de nada, porque já existem soluções mais novas”, afirma Sandro.

Além da Web, os técnicos lançam mão de outros recursos para desvendar os mistérios da Informática. Livros, listas de discussão, colegas de trabalho, tutoriais, ‘helps’ de programas, apostilas e toda e qualquer outra fonte – gratuita – de informação. Desde que isso não atrapalhe sua rotina de trabalho ou de criação, claro. Afinal, para esses profissionais vale a máxima antes só do que mal acompanhado.

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Jornal do Commercio
Recife - 31.10.2001
Quarta-feira