Pode até ser que o autodidata fixe melhor o conteúdo adquirido com tanto esforço, mas ele, certamente, perde mais tempo para descobrir os segredos dos computadores e ainda corre o risco de incorrer em um erro gravíssimo quando o assunto em questão é tecnologia: superficialidade. Quem garante são os representantes dos maiores institutos locais de formação de mão-de-obra especializada em TI (tecnologia da Informação): Ibratec e Iteci.
O diretor-presidente do Iteci, Merval Jurema, é categórico ao afirmar que nenhum outro método substitui, à altura, os cursos no momento da iniciação na Informática. “Pouquíssimas pessoas têm curiosidade suficiente para descobrir as coisas sozinhas, por isso aprendem tudo pela metade e passam a trabalhar num nível de superficialidade muito grande”, afirma.
Autodidatismo, segundo o executivo, é recomendável apenas para quem já domina uma determinada plataforma, por exemplo, e decide fazer um update. Mas nem sempre é uma questão de escolha, admite Merval, reconhecendo que leva um certo tempo até que as tecnologias disponibilizadas no mercado cheguem às salas de aula. A explicação para esse atraso está, segundo ele, numa antiga lei de sobrevivência mercadológica: “A oferta é definida pela demanda”, diz. “Ou seja, é preciso haver muitas pessoas interessadas num determinado programa ou conteúdo para justificar a criação de um curso.”
Já para o superintendente do curso técnico Ibratec, David Stephen, haverá sempre dois tipos de pessoas: as “pesquisadoras”, que têm facilidade em lidar com a tecnologia e gostam de sair mexendo em tudo, e os demais mortais. “Os primeiros nunca serão nosso público alvo”, afirma. “E quando entram num curso, ficam conhecidos como chatos, porque estão sempre cinco assuntos à frente da turma”, brinca.
Dois dos maiores especialistas em hardware do País, Laércio Vasconcelos e Gabriel Torres acreditam que autodidatismo e métodos tradicionais de ensino se complementam. “Todos são autodidatas, mas em níveis diferentes. Alguns cuidam de tudo sozinhos. Outros precisam de ajuda para lidar com determinadas questões”, afirma Laércio, que fez graduação e pós-graduação, mas nunca deixou de buscar informações por conta própria. Laércio também já ensinou em instituições cariocas e hoje dá palestras pelo País, mantém um site na Web e escreve livros. Ao todo, são 29 já publicados sobre redes, sistemas e equipamentos.
Gabriel Torres é adepto da filosofia ‘cada um na sua’. “Sempre fui ‘fuçador’ e adoro aprender sozinho, mas há quem não goste.” Quanto àquele discurso de que o mercado exige que os profissionais se virem sozinhos para atualizar conhecimento com grande agilidade, ele diz que isso é ladainha de fabricante para vender produto novo. “O Windows XP, por exemplo, é muito parecido com o NT, bem mais antigo. Não há tanto a aprender.”
Ele também alerta os autodidatas virtuais para os riscos de pesquisar na Web. “Tem muita coisa errada sendo dita na Rede. Não se pode confiar em tudo”. David Stephen aponta outro problema do autodidatismo: a falta de certificação ou diploma. “Já deixei de contratar um técnico muito competente, porque sua formação era só prática”, conta.
No caso de Fábio Caparica, a falta dessa documentação não chegou a impedir sua contratação. Mesmo tendo aprendido tudo o que sabe por conta própria, ou com uma ajudinha da Web e dos amigos, ele atuará como professor numa escola de Informática. Qual dos dois métodos considera melhor? Ele agora pensa duas vezes antes de responder. E pondera: “Mesmo para quem opta por um curso, é necessária uma boa dose de autodidatismo. O professor só orienta, mas ninguém aprende por osmose”.