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NOVA IORQUE
A maçã que muitos querem morder

Apesar do medo, a Big Apple ainda guarda locais que, a despeito de tudo, seguem divertindo e encantando turistas, principalmente os mais fiéis

por JONATHAN KANDELL
no.com.br

Há alguns dias, meu amigo Seiji voou de Tóquio sentindo-se numa missão. "Eu amo Nova Iorque", disse-me ele. "E quero mostrar minha lealdade gastando aqui o máximo de dinheiro que puder." Esse é o tipo de solidariedade que continuo ouvindo de estrangeiros endinheirados que parecem encarar como ato de coragem vir a Nova Iorque para ver shows na Broadway e comer em bons restaurantes. Mas Seiji não é rico nem pretensioso. Assim, decidi ajudar esse bom samaritano japonês a espalhar seu dinheiro numa variedade culturalmente díspar de entidades que podem ter sofrido economicamente após os ataques terroristas de 11 de setembro. Uma vez que Seiji não tinha muito tempo, sugeri que tentássemos visitar o maior número possível de lugares em 24 horas.

Às 18h, começamos no Museu de História Natural (Central Park West, altura da Rua 79). O número de visitantes caiu muito na maioria dos museus e este não é exceção. Até mesmo o Salão dos Dinossauros, normalmente uma das atrações turísticas mais populares na cidade, está quase vazio. Suspeito que isso se deva aos esqueletos do Tiranossauro Rex e de seus amigos serem assustadores e as pessoas não estarem querendo ser assustadas. Em contraste, há uma razoável multidão na nova exibição temporária, chamada simplesmente Pérolas, na qual estão expostos os fabulosos colares de pérolas usados por Maria Antonieta, pela Rainha Vitória e por Marilyn Monroe.

Às 20h, estamos no Harlem para assistir a uma cerimônia vudu na casa de Mama Lidia, uma sacerdotisa haitiana. O santuário em seu porão é abarrotado de objetos rituais usados em suas cerimônias: garrafas de uísque pintadas, velas esculpidas, varetas de incenso, luzes piscando e estatuetas de animais. Há cerca de 50 convidados na sala semi-iluminada quando irrompem o som de tambores e cantos. Uma mulher jovem e corpulenta é possuída pelos espíritos e dança freneticamente. Mama Lidia recebe então os pedidos de um variado grupo de suplicantes – coreanos, ítalo-americanos e afro-americanos, na maioria – que querem sua ajuda para entrar em contato com parentes mortos, trazer para casa cônjuges fujões, receber curas milagrosas e, em um caso, saber se um sobrinho desaparecido desde 11 de setembro está realmente morto.

TUBARÃO – Às 22h, chegamos por Metrô a Chinatown e caminhamos por vários quarteirões até meu restaurante favorito naquela área, o Dim Sum Go Go (East Broadway 5, telefone 732-0797). Chinatown sofreu pesadamente na esteira do ataque ao vizinho World Trade Center, pois a polícia isolou a vizinhança da maioria dos veículos para permitir que caminhões e equipamentos pesados chegassem à área do desastre. Mesmo o Dim Sum Go Go, um lugar brilhante, alegre e extrovertido, com uma deliciosa e inventiva cozinha cantonesa, está funcionando com a metade da capacidade. Então, Seiji e eu decidimos pedir o bastante para quatro pessoas. Começamos com o dim sum pelo qual o restaurante é famoso – bolinhos recheados com ervas chinesas, camarões, pato ou barbatana de tubarão. Por sugestão do gerente, pedimos caçarola de cordeiro com cogumelos, escalopes com raiz de lótus e, o mais memorável, folhas de um pé de batata feitas no vapor – algo que nenhum de nós já havia experimentado.

CORAGEM GAY –À meia-noite, um táxi nos deixa em frente ao Barracuda Lounge (275 na Rua 22 oeste, esquina com Oitava Avenida), a boate gay mais quente da cidade. É de longe o lugar mais abarrotado que visitamos esta noite. "Por que há tantas pessoas aqui e tão poucas no resto da cidade?", pergunta Seiji em seu inglês vacilante. "Minha opinião pessoal é que os gays têm sido mais corajosos que os heteros desde o ataque", diz o barman numa voz firme que não permite dizer se está sendo irônico. "Nós não vamos deixar um bando de terroristas nos prender em casa." Neste momento, Cashetta, um travesti com dois metros de altura, peruca loura e vestido preto brilhante assume o palco ao som de assobios e aplausos. Ela canta sua versão de My Way até que é raivosamente interrompido por um Frank Sinatra cover, que então termina a música soando quase como o Sinatra de verdade. Policiais e bombeiros são em geral o assunto das piadas por aqui. Mas Cashetta recebe sua mais longa e sensual salva de aplausos quando se refere àqueles “heróis”.

São 5h quando aparecemos no Smalls (183 na Rua 10 Oeste, próximo à esquina da 4), um bar de jazz no coração do Greenwich Village, onde músicos de várias bandas tocam depois de terminar o trabalho em outras boates. Seiji, um fissurado em jazz, está felicíssimo pois dois de seus músicos ‘das antigas’ favoritos – o pianista Frank Hewitt e o baterista Jimmy Lovelace – estão no palco. A platéia consiste de estudantes universitários e jovens profissionais, talvez os mais exuberantes e visíveis participantes do revival da vida noturna de Nova Iorque nas últimas semanas.

Para o café da manhã, andamos até o Café Habana (17 Rua Prince, esquina com Rua Elizabeth), a sede não oficial do novo distrito da moda que atraiu mais de 30 jovens estilistas independentes. Alguns deles estão bebendo pequenas xícaras de um café cubano forte e aromático e reclamando da falta de clientes em suas lojas. Seiji pede ovos mexidos com salsicha apimentada e feijão preto. Eu como um sanduíche cubano – lombinho assado, presunto, queijo e picles entre duas espessas camadas de pão tostado.

Um trem vindo da Grand Central Station nos deixa em vinte minutos no Jardim Botânico de Nova Iorque, no Bronx. A manhã está fresca e iluminada, ou seja, perfeita para a exibição atual: um jardim japonês de outono. Lá estão alguns pinheiros japoneses maravilhosos e maples com as folhas já vermelhas, bonsais cuidadosamente cultivados e crisântemos coloridos – todos arrumados ao redor de um lago reluzente. A exibição é chamada de Momijigari, que em japonês quer dizer a vista da folhagem de outono. "É o período do ano em que todos percebemos com mais clareza a passagem do tempo e da vida, e a promessa do renascimento na primavera", explica Seiji. Não consigo pensar em nenhuma experiência mais adequada e satisfatória espiritualmente em Nova Iorque.

Tradução de Leonardo Pimentel e Pedro Doria

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Jornal do Commercio
Recife - 01.11.2001
Quinta-feira