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MÚSICA Para entender melhor Jorge Benjor
Gravadora lança pacote com três grandes momentos do autor de Samba Esquemo Novo, que definiu uma nova concepção de suingue brasileiro
PAULO ROBERTO PIRES
Na capa, o mulato magrinho de camisa vermelha e calça azul, pernas cruzadas com a meia preta e a canela aparecendo, dedilha o violão. O ano é 1963 e, com a bossa nova comendo solta, Jorge Duílio Ben Zabella Lima de Menezes poderia ser confundido com um deles. Mas há algo novo, na imagem como no som: na foto, falta o banquinho, Jorge Ben está sentado no ar avisando que Samba Esquema Novo é mais que título, é um manifesto estético de sua radical originalidade. Trinta e oito anos e um Benjor depois, é esta invenção que cintila neste e nos seus dois discos seguintes – Sacudin Ben Samba e Ben é samba bom, ambos de 1964 – lançados com África Brasil (1976) em versões remasterizadas no pacote Samba & Soul da Universal.
Naquele 1963, foram lançados clássicos da bossa nova como Garota de Ipanema, Samba do avião e Só danço samba e a jovem guarda estourou com Parei na contramão. Sem se enquadrar em nenhum dos dois estilos, Jorge Ben correu por fora e emplacou Mas que nada entre os hits do ano, confirmado quando gravou o LP que, segundo consta, vendeu cem mil cópias em dois meses. O segredo era mistura, até então impensável, de um sambão mais batido com harmonias de jazz, metais pesados e um suingue absolutamente irresistível no violão e nos vocais. A sonoridade surpreendente se deve à mistura de influências da época, presentes num disco de ruptura e transição do samba. Em Mas que nada e na maioria das 12 faixas, o acompanhamento é de Meirelles e os Copa 5, inventores maiores do samba-jazz que deixam suas marcas inconfundíveis em Rosa, menina Rosa e sobretudo em Uala ualala. As orquestações do maestro Gaya, com fantásticas invenções de para cordas, dão um pano de fundo bossa-novístico ao suingue de Balança pema e Quero esquecer você. Chove, chuva (aqui em sua melhor versão) e A tamba são costuradas pelo piano de Luis Carlos Vinhas liderando um dos muitos trio que surgiram na época.
Samba Esquema Novo é fundamental para entender todo o Jorge Ben e, especialmente, os dois discos seguintes, que desdobram todas as (muitas) sugestões da gravação de estréia. Deles não saiu nenhum sucesso óbvio – a não ser o Bicho do mato, também gravado por Elis Regina em 1970 no Em Pleno Verão – mas ambos são fascinantes e, ouvidos em seqüência, são nada menos do que excepcionais.
Em Sacudin Bem Samba, J. T. Meirelles e Luis Carlos Vinhas pegam pesado nos arranjos mais uma vez evocativos do que se fazia na época. A influência afro, filtrada pelos metais, é a mesma que deu no segundo disco de Wilson Simonal, A Nova Dimensão do Samba, no Coisas de Moacyr Santos e também no Edison Machado é Samba Novo. Há momentos antológicos como Nena Nanã, Vamos embora uáu (com direito a citação a de Berimbau) e a levada heavy metal de Não desanima, João.
Ben é Samba Bom é, em muitos sentidos mais experimental, em ritmos e harmonias. A Meirelles, juntam-se nos arranjos os maestros Gaya e Nelsinho revendo sucessos como Onde anda o meu amor (de Orlann Divo e Roberto Jorge) e o Oba, lá, lá de João Gilberto (esta com direito a solo jazzístico de um ótimo pianista não identificado). Entre os originais de Ben, destacam-se a angulosa Descalço no parque, Zópe zópe e, apontando, para o futuro da carreira do compositor, Guerreiro do rei.
África Brasil vem 11 discos e 12 anos depois de Ben é Samba e traz o compositor mais próximo do Benjor. Já tendo depurado as influências da bossa e do samba e produzido megahits como País tropical, Bebete vãobora.
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