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ARTIGO

Baú de passados

POR FÁTIMA QUINTAS

A celeridade dos dias me apavora. As horas correm, os meses passam, os anos somem do calendário sem que eu perceba que a época de brincadeiras infantis desapareceu. Bons devaneios: jogos de amarelinha, esconde-esconde, cabra-cega... Chego a acreditar que a fada má adianta o ponteiro do relógio como o intuito de jorrar o fel da tirania cronológica. Apego-me ao que fui para suportar a gula do tempo. Que hei de fazer com o meu baú de passados?

Do presente, pouco sei. Fui desesperadamente, embora as minhas pisadas sejam vagarosas, tão lerdas que sempre me posto atrás de uma multidão sôfrega por avançar. Não. Recuso-me a guiar-me por essa correnteza insana. Preciso pelo menos espiar as flores que vicejam no caminho: papoulas, margaridas, hortênsias, bromélias... Apetece-me tocá-las, aspirar os cheiros, sabê-las parte integrante de um universo tacanho de amor. Que conheço eu do mundo? Nada. Apenas existo e penso.

O tempo se encurta. A sua passagem se dá com tamanha volúpia que os minutos me atropelam, a invocar a imagem da esfinge devorando-me inteira. O pudor da discrição inexiste. Os medos proliferam à medida que os anos se despedem. De repente, sou apenas passado e me vejo invadida por recordações. Vou e volto numa ciranda que não é circular. O pêndulo oscila, lembrando-me que o peso da balança já se faz irregular. Reajo. Exorcizarei os demônios que me incomodam durante a vivência do circuito diuturno: o ermo da noite a transmudar-se em manhãs ensolaradas; a luz do dia a desmaiar-se em penumbras misteriosas. Uma roleta irreversível da qual sou mera espectadora, pequenina, frágil.

Acuada pela usurpação do tempo, decido desligar o som do rolégio de carrilhão que, imponente e pleno de empáfia, ecoa pela sala, infiltrando-se nos mais recônditos esconderijos, verdadeiras represas que soltam com serenidade tons e semitons. Longe das suas simétricas badaladas, serei capaz de esquecer a travessia das horas. Apago as luzes, silencio o relógio, e procuro criar alianças para a minha falsa realidade. O escuro se converte em breu, os ponteiros estacam, congelados pelas minhas próprias mãos. Como poderei eu viver no vácuo? Sem tempo e sem espaço? Disfarço. Elaboro momentos artificiais. Quero-os meus, egocentricamente meus. Grande bobagem! Tudo resvala em tolas divagações à espera da coragem de reacender as luzes, girar a corda do relógio e aceitar a minha efemeridade. Então, sim, conviverei com a vulnerável condição da minha existência.

O velho relógio do meu bisavô, transpõe gerações e mais gerações, incólume. A caixa que o acolhe, de madeira pesada, exibe a qualidade do jacarandá, indiferente a qualquer violação externa. A sua imponência imprime a marca de uma peça antiga produzida para a imortalidade. As laterais, de grossa espessura, talhadas artesanalmente, esboça desenhos eróticos, anjos seráficos, outros fesceninos, todos atentos guardiões da temporalidade. O longo e belo fio, de um dourado escuro, não perde o compasso de seu ritmo. O tampo superior, recortado em formas barrocas, contrasta com a linha original de um gótico à moda das catedrais espanholas. Nele tudo parece estático, apesar do movimento periódico de oscilação. Tão pachorrento. Tão sincronizado. Tão melodioso. Enganadoramente veloz, todavia. A ostentar, com garbo imperial, a cruel arrogância de quem se julga superlativamente magnânimo.

O tempo acelera. Tenho plena noção da sua feroz velocidade. Antes, exaltar a loucura dos mansos que aceitar esse excesso de consciência. De que me serve tal estado de clareza?

Será o tempo um vestígio de eternidade?

Fátima Quintas é escritora.
E-mail:
quintas@fundaj.gov.br

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Jornal do Commercio
Recife - 05.03.2001
Segunda-feira