![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
CINEMA Quando a versão supera o original Clássicos do cinema voltam às telas em novos formatos, com cenas inéditas e trilha sonora em som dolby. Mas ainda há quem prefira o filme verdadeiro POR KLEBER MENDONÇA FILHO O relançamento nesse final de semana de O Exorcista, numa nova versão do seu diretor, William Friedkin, aponta para uma tendência interessante no cinema, que beira a mais pura filosofia. O cinema é uma arte que tem a força de imprimir na nossa mente imagens seqüenciadas. Lembramos dos filmes como eles nos foram apresentados e, ultimamente, alguns desses filmes estão mudando, ora por questões de marketing, ora por uma tentativa de respeito à integridade artística de quem os fez. Às vezes, para recuperar o tempo perdido, literalmente. No Festival de Berlim, há duas semanas, foi apresentada a cópia nova em 70mm e som digital de 2001 Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, que os cinemas do mundo estarão exibindo ainda esse ano. Essa cópia inclui uma nova partitura do músico Alex North, na abertura do filme. Há também a notícia, divulgada na revista American Cinematographer, de que Apocalypse Now, de Francis Coppola, está em processo de restauração, que trará nada menos que 55 minutos de imagens e sons inéditos. Recentemente, temos também observado mudanças no som de filmes antigos, apresentados em versões mais altas e sofisticadas (Os Reis do Iê-Iê-Iê, Vertigo Um Corpo Que Cai), outras vezes, o som desaparece porque foi assim que o diretor o quis originalmente (A Marca da Maldade, de Orson Welles), ou surgem cenas inéditas (Blade Runner, de Ridley Scott; Spartacus, de Kubrick; Aliens O Resgate; de James Cameron) que mudam, intensificam, ou até diluem filmes antes conhecidos. Há ainda o novíssimo conceito de um filme como Time Code, que pode ser visto numa cópia quase que totalmente diferente (no seu lançamento em DVD) da versão tida como oficial, o que, mais uma vez, nos leva à pergunta: qual seria a versão original, afinal? Blade Runner é melhor na sua versão do diretor porque a Warner assim o quis? Muita gente, eu incluído, prefere a versão antiga, com as narrações em off e sem cavalinhos correndo na floresta. 25 ANOS Começando com o caso mais atual, O Exorcista: o filme foi visto por milhões nos anos 70, faturou um bom dinheiro na TV e em VHS, e foi reprisado há pouco mais de dois anos no Brasil num Festival de Aniversário do estúdio Warner. O Exorcista sempre foi respeitado pela sua carpintaria técnica e narrativa instigante. Com os 11 minutos de cenas novas, e som digital, o filme ganha a sua nova versão com um investimento da Warner de um milhão de dólares. O filme arrecadou US$ 40 milhões, só nos EUA, com o seu relançamento. No entanto, como fica a versão original? Fãs do filme, que já o tinham em VHS e DVD terão agora que aposentar suas cópias e comprar a nova Versão do Diretor, quando há não mais de dois anos a Warner lançou em DVD uma versão comemorativa de 25 anos para colecionador, repleto de extras e com cara de definitiva. Mexeram também no som do filme, que já era excelente na época em que foi lançado, mas talvez insuficiente para os padrões técnicos de hoje, especialmente com a tão divulgada tecnologia digital. É certo que, na nova versão, a garota Regan grunhe ao redor da sala, mas isso certamente não faz do filme uma obra melhor. Para o designer André Pinto, fã de O Exorcista, a versão original poderá ficar em segundo plano na sua prateleira, especialmente por causa da utilização de som. EXTERMINADOR Sempre fui muito cético em relação às chamadas novas versões que alteram quesitos técnicos importantes de filmes que, de outra forma, não foram feitos daquela maneira. Um bom exemplo é a recente restauração de Vertigo Um Corpo Que Cai, de Hitchcock, que ganhou uma nova trilha digital que deixou o filme, feito em mono, nos anos 50, com o som de O Exterminador do Futuro, disse à reportagem do Jornal do Commercio o especialista em restauração Steven Higgins, do Museu de Arte Moderna de Nova York. A referida versão de Vertigo foi restaurada e re-sonorizada pela dupla Robert Harris e James Katz, também responsáveis por Lawrence da Arábia e Spartacus, filmes que tiveram seqüências significativas recuperadas por causa de cortes relacionados à duração (Lawrence) e à censura (Spartacus). Em Spartacus, o notório diálogo entre Laurence Olivier e Tony Curtis sobre Ostras e Caracóis é a aquisição mais comentada da chamada nova versão original do filme. Ano passado, Harris e Katz relançaram a cópia nova de Janela Indiscreta, mantendo o som mono original e, especialmente, as cores originais. Esta cópia está em exibição no Brasil. Higgins, que cuida da restauração de tesouros da filmografia americana, no Moma, lembra que, em 1997, Taxi Driver, de Martin Scorsese, passou por um processo de restauração do negativo que incluiu uma nova mixagem em dolby stereo, supervisionada pelo próprio Scorsese. Martin preferiu, ele próprio, ficar com a nova versão em Dolby. O museu tem guardada a versão restaurada, mas na versão original, em mono. Nosso interesse é manter a versão mais próxima possível do filme original, disse Higgins.
|
|