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O MESTRE DE TODOS OS PERNAMBUCANOS II
Um brasileiro muito singular

Deputado estadual por cinco legislaturas sucessivas, tendo falecido no exercício do mandato, a paixão da vida pública não o arrebatou

POR ATTILIO JOFFILY

Em dezembro de 1951, no transcurso da semana comemorativa do centenário de nascimento do meu avô paterno, publicou o Diario de Pernambuco um artigo da minha autoria intitulado “Reminiscências de Pereira da Costa”.

No escrito estampado no órgão dos Diários Associados recordei então o Pereira da Costa familiar, patriarcal, de roupas caseiras e de boné, e o Pereira da Costa social, parlamentar, de fraque, bengala e chapéu coco.

Volvendo, agora, como em 1951, aos dias de 1912-1923, afigura-se-me nitidamente à vista a casa da Rua da Aurora situada nas proximidades da antiga Cervejaria Pernambucana. Construída para residência de uma família inglesa, possuía uma lareira, que o chefe britânico mandara fazer, talvez por excentricidade, talvez como recordação da pátria distante. Casa de dois pavimentos, nela Pereira da Costa morou durante largos anos, e escreveu grande parte dos seus trabalhos, que, no dizer de Gilberto Freyre, “parece a obra não de um homem só, mas de uma academia inteira de investigadores”.

Das amizades de Pereira da Costa na Rua da Aurora, das suas afeições, dos que o visitavam, lembro-me de Oliveira Lima, da sua figura descomunal, agigantando-se diante do meu avô, baixo e magro, gravando-se-me indelevelmente na memória; de Alfredo de Carvalho, o erudito pesquisador dos arquivos holandeses; do historiador Mário Melo; do Maestro Euclides Fonseca, que o deliciava, cantando as suas composições, e do Assis, como assim o tratava Pereira da Costa, um jovem de ares de estudante, professor da Faculdade de Direito do Recife – Embaixador Assis Chateaubriand.

Na casa da Rua da Aurora, num dia de alvoroço, em 1916, eu o vi deitado, a cabeça enfaixada, aos cuidados de um médico vermelhão, moço de porte atlético. Pereira da Costa caíra na rua e, muito ferido, socorrera-o a ambulância.

Salvou-o o Dr. Monteiro de Morais.

Acidentado, viria meu avô a morrer sete anos depois no sobrado onde residia em Afogados.

A vida ele amava apaixonadamente. “Não me ajudem a morrer, ajudem-me a viver” era o quedizia à esposa e aos filhos, quando adoecia.

Às vaidades humanas manifestava desprezo absoluto. Ao registrar nas suas disposições finais – publicadas no Diario de Pernambuco de 22-11-1923 – “Nada tenho que legar à minha família senão uma insignificante pensão do Montepio dos Funcionários Públicos do Estado, e alguma coisa resultante de um pequeno pecúlio que tenho na Cooperativa dos Funcionários Públicos de Pernambuco, e por essas tristíssimas condições em que a deixo, humildemente lhe peço perdão de meu crime de lesa-família, o único de que me acusa a consciência”, acrescentou: “Determino que o meu ataúde seja forrado externa e internamente de chita preta, sem ornatos e guarnições de espécie alguma, tendo, porém, sobre a tampa uma cruz de pano branco (madapolão) de tamanho proporcional, aos pés da qual poder-se-á colocar, se quiserem, as iniciais do meu nome em áureas letras. As alças do ataúde serão dessas comuns, de ferro, envernizadas de preto. Pertenço a várias corporações religiosas, umas nobres e outras plebéias, umas ricas e outras pobres, e tendo de escolher para minha sepultura um jazigo qualquer, é de minha vontade que seja um dos que possui no cemitério público a Irmandade de N. Sa. do Rosário dos homens pretos do Bairro da Boa Vista.”

Se em todos os grandes feitos aparece sempre um vulto de mulher, na vida de Pereira da Costa, alongando-lhe as horas da pesquisa, conquistou esta palma uma criatura miudinha, simples dona-de-casa, sua “terna, afetuosa e querida companheira de tão dilatados anos”. Dirigindo a casa inteira, esmerava-se nos arranjos domésticos, apegada ao seu reino, de onde raramente saía. Em 1919, Maria Brandão Pereira da Costa começou a definhar, atacada de arteriosclerose, para morrer, em 1921, no limiar das suas bodas de ouro. Foi quando, pela segunda vez, vi meu avô chorar. A primeira vez foi em 1915, ao despedir-se dos netos, numa viagem que meu pai fez a Sergipe. Pereira da Costa não se imiscuía no regime do lar, exceto na educação dos filhos. Em casa distraía-se fazendo os canteiros do jardim, levando restos de comida a um caixão de guaiamus, colocado a um recanto do alpendre, “cevando os guaiamus”, de que era guloso, como todo bom morador do Recife que nasceu e cresceu quase à beira dos mangues”, como disse o inolvidável Aníbal Fernandes ao referir-se às minhas “Reminiscências de Pereira da Costa” numa de suas crônicas diárias no mais antigo jornal da América Latina, publicada sob o mesmo título.

De Pernambuco ausentou-se meu avô apenas por três vezes. Em 1884, quando seguiu para Teresina comissionado no cargo de secretário da Província do Piauí; em 1887, em viagem de estudo à Ilha de Fernando de Noronha, e, em 1908, quando conheceu o Rio de Janeiro. Em Teresina, onde permaneceu até 1886, escreveu e publicou Notícia Sobre as Comarcas da Província do Piauí, livro clássico da historiografia piauiense, na expressão de Aderbal Jurema.

Possuidor do segredo da multiplicação do tempo, Pereira da Costa nunca se afobava. Nos gestos moderados, na mansidão da voz, em tudo via-se placidez. Avesso à oratória, era um conversador, um contador de casos, de primeira orddem. Discorria, entre fungadas de rapé, sobre os mais variados assuntos. De quando em quando, almoçava com os frades da Penha, os amáveis capuchinhos do Recife, que fizeram toda a campanha da Guerra Holandesa, socorrendo feridos, ministrando sacramentos e... matando hereges invasores.

Oliveira Lima deu-lhe o título de “o mestre de todos nós”. Mas à frase glorificadora de Oliveira Lima, ele preferia a que adotara ao ingressar na Academia Pernambucana de Letras, em 1901 quando escreveu, dizendo: “Sou um simples cronista, como que o rude mineiro que desce às profundezas da terra extrai o diamante informe, cheio de impurezas, e o entrega ao perito e paciente lapidário para lhe dar brilho e valor.”

Asmático desde a mocidade, imprimira-lhe a doença aparência de convalescente, de inválido. E envelhecera-o prematuramente. Em 1900, aos quarenta e oito anos de idade, já o chamavam o velho Pereira da Costa. Aos primeiros sintomas da moléstia, recorria ao paliativo dos cigarros de estramônio, fumando-os seguidamente. Por fim, cominado, a respiração opressa, os olhos dilatados, tomava posições variadas por largo tempo, até, passado o acesso, deitar-se exausto e dormir tranqüilamente. O corpo enfermiço e gasto reanimava-o como alimento da alma o entusiasmo da pesquisa. A doença, assim ela a esquecia. Curava-se pelo espírito.

Deputado estadual por cinco legislaturas sucessivas, de 1901 a 1923, tendo falecido no exercício do mandato popular, a paixão da vida pública não o arrebatou.

E não foi um deputado inoperante. Veja-se o capítulo Pereira da Costa Parlamentar.

Investigando e divulgando coisas mil, Pereira da Costa, aparentemente recluso do mundo, fora da época, no trajar um tanto excêntrico, foi um verdadeiro repórter. Um repórter de fraque, bengala e chapéu-coco.

Trecho do livro Um brasileiro singular, de Attilio Joffily

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Jornal do Commercio
Recife - 04.12.2000
Segunda-feira