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Vamos trabalhar

Passado o Carnaval, temos muito trabalho pela frente. Do lado dos poderes públicos, completar as reformas, brigar para ocupar a posição que cabe a um país como o Brasil nas negociações sobre comércio internacional, pacificar e fazer funcionar um Congresso traumatizado pelas últimas eleições em suas duas casas, dar mais transparência e agilidade ao Judiciário, levar a sério o princípio federativo, entre muitas outras iniciativas. Do lado da sociedade, cobrar tudo isso, exigir que as autoridades constituídas cumpram seu papel, sem conflitos entre poderes, e fazer sua parte na formatação de um País moderno e próspero.

No plano federal, ainda há muito o que fazer para se chegar lá, aonde queremos. Muito progresso alcançamos nos últimos anos. Os compromissos político-partidários do presidente Fernando Henrique Cardoso, porém, ainda não lhe deram chance para realizar seu desejo de deixar, a seus sucessores e ao povo brasileiro, um novo país, economicamente saneado, socialmente desenvolvido, com estrutura e costumes políticos compatíveis com o lugar a que o País aspira e a que tem direito no concerto mundial. O que ele quer não é o que ele pode.

Mesmo mantendo o atual jogo de poder, contudo, nos quase dois anos que lhe restam de mandato, muita coisa é possível fazer. Uma boa reforma política, por exemplo, sem casuísmos (do tipo parlamentarismo para tirar poder da oposição; isso já foi tentado sem sucesso em 1961 e só fez deteriorar a situação do país), poderá nos trazer real independência, respeito e harmonia entre os três poderes constitucionais; uma restauração do equilíbrio na Federação; uma razoável fidelidade partidária, que dê aos partidos respeitabilidade e consistência, e inviabilize as legendas de aluguel, que desmoralizam a democracia e a representatividade popular; um redespertar do interesse dos eleitores, hoje compulsórios, pelos problemas nacionais, pelas próprias eleições (hoje correm livres o voto em branco e o propositalmente anulado).

No plano estadual, também muito resta a fazer no sentido do avanço político e da retomada de um desenvolvimento econômico que possibilite real progresso, inclusive naturalmente o social. O ano passado deu um reforço de caixa ao Governo do Estado, com a venda da Celpe. Mas não é todo dia que temos uma Celpe para negociar. Importa arrecadar muito; sem contemplação com financiadores de eleições; e aplicar criteriosamente o dinheiro arrecadado do contribuinte. Projetos como os do Porto Digital e outros com tecnologia de ponta não podem ficar apenas na propaganda e no press-release. Mais uma vez: compromissos eleitorais não devem sobrepor-se ao nosso desenvolvimento. Pernambuco merece mais.

E, finalmente, mas não em posição inferior, a sociedade tem muito a fazer. Como lembrávamos de início, fiscalizar, vigiar, cobrar. E agir de acordo com a consciência que vai tomando de não ser subjugada ao poder público, mas anterior ao Estado, sua constituinte e controladora. Vamos ampliar o debate político, em sua acepção mais alta, multiplicar entidades independentes (tipo ONG), inviabilizar a mistificação e manipulação da maior parte da população. Não vamos esperar tudo do Estado, dos poderes públicos, como nos acostumamos a fazer durante séculos. Tomemos iniciativas, vamos agir pela democracia e mais civilização.



Jornal do Commercio
Recife - 05.03.2001
Segunda-feira