Tentar conservar a aparência de família feliz e bem resolvida pode ser um dos fatores que levam os pais a retardarem a saída dos rebentos de casa, dizem psicanalistas
A dona de casa Maria de Lourdes dos Santos ficou feliz quando a namorada de seu filho José Renato, de 27 anos, se mudou oficialmente para o quarto dele, em sua casa. Ela já dormia lá nos fins de semana e agora é mais um bem recebido membro da família. O jovem casal trabalha e estuda fora, não contribui em nada nas despesas da casa, muito menos na administração na limpeza, já que saem de manhã e só voltam à noite. Mas Maria de Lourdes está longe de reclamar. Ela adora a nova situação. “Depois que os filhos crescem a gente enfrenta um vazio muito grande. Agora, não. Faço questão de levantar cedo, preparar o café dos dois e conversar um pouquinho de manhã. À noite, faço um jantar gostoso, porque eles chegam famintos. Ela é uma moça ótima e quando tiverem uma situação melhor vão se casar. Mas, por mim, podem ficar morando aqui para sempre. Os dois são ótima companhia”, conta ela, que tem a aprovação total do marido, o aposentado José Ronaldo Braga.
MAMÃE NÃO DEIXA – Para a psicanalista Barbara Oliveira, casos como o de Maria de Lourdes apontam para uma dependência psíquica entre pais e filhos que pode ser negativa e perigosa, apesar da aparência de família feliz e bem resolvida que todos tentam manter. “Na verdade, essa mãe não quer que o filho cresça vá embora. Ela própria deve ter problemas de viver sozinha como uma adulta madura e, assim como ampara o casal com casa e comida de graça, sente-se também amparada por ele. Quanto ao filho e a namorada, o processo de amadurecimento já é naturalmente difícil, mas essa situação se agrava quando os pais tentam impedir esse desenvolvimento natural do ser humano”.
Para exercer a autonomia plena, o adulto, segundo a psicanalista, deve ser senhor de sua casa, de suas despesas, de seus desejos. Ele é responsável por si mesmo e não mais os seus pais. “A mãe e o pai devem cuidar dos filhos pequenos e adolescentes. Os adultos devem ser estimulados a aprender a cuidar de si sozinhos”, diz Bárbara. A psicanalista Lulli Milman concorda que muitos pais investem nessa dependência e são responsáveis pela infantilização dos filhos adultos.
“O filho adulto não saiu de casa porque os pais não o ajudaram a crescer e amadurecer. A dependência é recíproca. Os pais também têm dificuldade de se separar dos filhos, de ter filhos adultos, o que implica numa série de situações complicadas. Uma delas é a de que ter filho adulto significa estar ficando velho. Isso pode ser insuportável. Às vezes, é mais fácil ter sempre um filho criança em casa, ainda que com mais de 30 anos”.
Para o psicanalista Aloysio d’Abreu, até mesmos os pais que reclamam que os filhos estão crescidos e não saem de casa são responsáveis por esta situação de dependência mútua. Por um lado, os pais não deixam os filhos crescerem e, por outro, os filhos estão sempre precisando do apoio deles. “Quando se analisa a infância desse adulto que não sai de casa, percebe-se que os pais foram superprotetores, coercitivos ou do tipo que dizem ‘não faça nada que eu faço por você’. Conheço mães que, se a filha pensa em comprar um sapato de determinado tipo, ela no mesmo dia chega com dois pares daquele de presente. Ou seja, a menina não teve o trabalho sequer de escolher. No futuro, ela terá dificuldade de escolher sapatos e muitas outras coisas”, comenta Aloysio.Esse tipo de adulto dependente se mantém assim mesmo depois de casado, segundo o psicanalista. “Tem gente que casa e que quer que o marido ou a esposa seja uma continuação daquela mãe ou pai superprotetores. A dependência se transfere para o parceiro, mas ele continua sempre precisando do apoio da família. Até mesmo quando se separa, ou volta para a casa dos pais ou continua a ter dificuldades de amadurecer e gerir a própria vida”, diz.
SÓ SE CASAR – Para algumas mães, manter os filhos em casa é essencial. Outras sequer dão ouvidos aos conselhos dos psicanalistas. A dona de casa Helena Gomes Vianna, por exemplo, diz que é capaz de fazer de tudo para manter seu filho, João Cláudio, 27, em casa. “Só vou entender a saída quando ele se casar. Mesmo assim, vou ficar muito triste. Enquanto for solteiro, não tem motivo para sair. Pode trazer quantas namoradas for preciso”, diz ela. Já a nutricionista Suzana Macedo Uzeda preferiu abrir mão dos sentimentos e incentivar sua filha, Amanda, 26 , a cursar a Faculdade de Farmácia da Universidade de Campinas. Mesmo assim, não se livrou das despesas com a filha. “Assim que ela passou no vestibular, no ano passado, dei o maior apoio. Aluguei um apartamento, comprei móveis e um carro e mando dinheiro todo mês. Fico com saudades, mas sei que estou fazendo o melhor para ela”, conta.