Doença já é a quarta em incidência nos casos de câncer do País. O melhor remédio ainda é a prevenção via um simples auto-exame e consultas ao dentista
por BRUNO ALBERTIM
Campanhas de mídia já conseguiram cristalizar a idéia de que o toque nos seios pode fazer as mulheres perceberem o câncer de mama com a antecedência necessária à cura. O auto-exame também pode significar a prevenção do câncer de boca, uma variante da doença que tem provocado estragos significativos na população brasileira. Com onze mil novos casos registrados ano passado, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), o tumor que atinge a boca já é o quarto em ocorrências no país. No universo feminino, perde apenas para os de pele, útero e o de mama. Entre os homens, fica atrás dos casos de pulmão, próstata e, também, pele.
“Atenções com a mucosa da boca podem indicar a hora certa e ainda eficaz de se procurar um médico”, alerta o especialista em Estomatologia, o estudo das doenças bucais, Jair Carneiro Leão, professor dos Departamentos de Graduação e Pós-graduação de Odontologia da Universidade Federal de Pernambuco. Alterações na mucosa oral, como pontos e áreas esbranquiçadas, ou mais vermelhas do que o de costume, são o alarme para frear a doença que pode necrosar a boca por completo, destruindo ossos, pele e mucosa, e, em seu estado final, levar ao óbito. “Qualquer ferida que passe mais de duas semanas para cicatrizar deve ser motivo de consulta. Isto não quer dizer que haja câncer. Mas, se houver, ele poderá ser dissipado no estágio inicial”, indica Leão.
O câncer bucal pode se desenvolver desapercebido, praticamente invisível ao seu portador. “Há cerca de três meses, recebi uma senhora querendo consertar uma prótese. Ela não sabia, mas possuía manchas esbranquiçadas na boca que já indicavam um câncer avançado. Pouco tempo depois ela morreu”, conta outro médico, o odontólogo Kléber Lasset Filho, diretor do Centro de Aperfeiçoamento Odontológico de Pernambuco. “Na maioria dos casos, os pacientes só procuram o tratamento depois que um dentista percebe anormalidades e o encaminha a um especialista”, diz ele, que não deixa de responsabilizar os próprios colegas pelos diagnósticos tardios. “Muitos dentistas examinam exclusivamente os dentes e nem olham para sinais estranhos na boca, que deve ser uma responsabilidade por completo do odontólogo”, reclama.
O médico Jair Carneiro Leão, doutor em Medicina Oral pela Universidade de Londres, elege o fumo e o álcool como os dois principais fatores degenerativos da mucosa oral. “O uso freqüente e associado dos dois vai aumentar o risco. O cigarro é mais perigoso. Sozinho, possui várias substâncias que facilitam o desenvolvimento de lesões”, diz. Ainda existem outros fatores que vão facilitar o desenvolvimento de lesões, como próteses e dentes mal alinhados.
Hábitos como mastigar a gengiva ou bochecha insistentemente nos mesmos pontos, anos a fio, também podem se constituir nos traumas que vão facilitar a degeneração das células.
A economia na hora de colocar uma prótese pode sair caro para a saúde da boca. “Muita gente não procura um dentista na hora de colocar uma dentadura, por achar caro, e vai direito a um protético. Dele, escuta que logo vai se acomodar com a prótese que está incomodando. Isto acontece, porque qualquer tecido agredido por dias acaba anestesiado. Mas os traumas persistem”, alerta Kléber Lasset. Pernambuco detém 3% das ocorrências nacionais. Apesar de baixo, o percentual indica que três mil e trezentas pessoas desenvolvem, por ano, o câncer no Estado. “As mortes são freqüentes porque praticamente não existe o diagnóstico prévio”, alerta o médico.