por LEONARDO VALENTE
Agência Globo
A odontologia está prestes a ganhar uma arma poderosa para a manutenção da saúde bucal: a vacina contra a cárie. O medicamento está sendo desenvolvido em conjunto por cientistas britânicos e um laboratório americano e promete matar as bactérias responsáveis pelas lesões, evitando o problema por quatro meses.
Segundo o professor Tom Lehner, chefe da equipe de pesquisadores do Guy’s Hospital Dental School, de Londres, participante do estudo, a nova vacina está em fase final de produção e será comercializada na Europa a partir de 2002. Além do hospital britânico, integra o projeto a empresa americana Planet Biotechnology, que será responsável pela produção. “Os testes clínicos feitos no ano passado tiveram sucesso absoluto, imunizando completamente os pacientes. O objetivo agora é viabilizar rapidamente a produção em série para a comercialização”, diz o professor.
A vacina é resultado de um estudo dos pesquisadores britânicos publicado em 1998 na revista Nature. O princípio ativo mais importante do medicamento é o CarolRxTM, espécie de anticorpo (muito semelhante à imunoglobulina humana do tipo A) que foi produzido a partir de alterações genéticas feitas em plantas.
O anticorpo, apelidado de plantbody, elimina a bactéria streptococcus mutans, impedindo que ela colonize o dente e forme a placa bacteriana, primeiro degrau para a formação das lesões de cárie. A vacina é aplicada diretamente nos dentes, num processo semelhante ao que se faz com o flúor. Ela é incolor e não tem sabor. “Sem a presença do streptococcus, não é possível a formação da cárie, pois são os resíduos ácidos de sua alimentação que corroem o dente. Este é o segredo da vacina, que elimina completamente a bactéria da boca” diz a pesquisadora Julia Ma, outra integrante da equipe britânica.
Os testes para se verificar a eficácia do medicamento foram feitos em voluntários ingleses, que receberam seis aplicações (duas doses por semana). De acordo com os pesquisadores, essa deverá ser a dosagem recomendada. O preço ainda não está definido. Os cientistas estudam agora uma forma de aumentar o tempo de imunização. “ Após o período de imunização, a vacina poderá ser reaplicada. Nosso desafio, no entanto, é aumentar esse prazo. Se possível, para alguns anos”, diz Tom Lehner.
Nos Estados Unidos, os resultados obtidos com voluntários ainda estão sendo analisados pela Associação Americana de Odontologia (ADA). De acordo com os especialistas da entidade, a expectativa é de que, num futuro próximo, possa ser desenvolvida uma vacina que dê imunidade por até 20 anos.
No Brasil, a notícia da produção da vacina é vista com otimismo pelos dentistas. Segundo Miguel Nobre, presidente do Conselho Federal de Odontologia, o novo produto vai significar uma revolução no tratamento dentário. “A criação de uma vacina contra a cárie é um desejo antigo da comunidade científica e dos dentistas. Com ela, o índice de lesões certamente será menor”, diz.
Apesar de ser uma arma poderosa contra a cárie, a vacina, segundo os especialistas brasileiros, não deve ser encarada como substituta de instrumentos comprovadamente eficazes, como a escova e o fio dental. Segundo o cirurgião-dentista Gabriel Richaid, os cuidados com a higiene bucal deverão permanecer os mesmos. “A escova de dente e o fio dental servem, principalmente, como instrumentos de higienização, além de massagear a gengiva, revascularizando a área e, com isso, evitando qualquer processo inflamatório. Não servem apenas para se evitar a formação das cáries”, adverte ele.