LG_jc.gif (3670 bytes)



Sexo@Cidade
Flávia de Gusmão

Nunca é tarde para saber o que as mulheres gostam

1 Do que as mulheres gostam

O filme O Que as Mulheres Gostam estréia, ironicamente, um dia depois do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Nele, o personagem de Mel Gibson (aqueles olhos azuis remetem sempre à pergunta: se todos os homens são iguais porque o meu não é igual ao Mel Gibson?) recebe, misteriosamente, o dom de saber exatamente o que as mulheres estão pensando...e querendo. Não deixa de ser um exercício divertido imaginar como seria o mundo de machos e fêmeas se tal coisa fosse possível, mesmo porque este é um canal de comunicação permanentemente obstruído. Alguns segredos, neste caso, surpreenderiam os enxadrezados.

2 Definitivamente não gostam de ...

As mulheres morrem de ri com a reação mais óbvia do comportamente masculino: o despeito diante de um não. Esse ‘não’ pode ser dado pela gostosona que levou uma cantada, não gostou e mandou o C-X para um lugar mais adequado. Aí ela deixa de ser gostosona e vira dragão, baranga, canhão ou vagabunda. Outra forma de dizer ‘não’ é discordar das regras que eles mesmos estabeleceram. Neste caso a mulher é mal comida. Aliás, as mulheres morrem de rir da fixação que o homem tem pelo seu pênis, ao qual só faltam atribuir poderes de tirar a Terra do seu eixo. O mantra desta espécie para tudo o que uma mulher faça que contradiga suas expectativas é: “O problema dela é falta de...”. Então tá.

Mulher detesta propaganda enganosa. Pode-se até perdoar (e ensinar, por que não?) aquele que faz o estilo low-profile, mas se o C-X vive se vangloriando de ser o bonzão de cama, então, o mínimo exigido é que ele seja, de fato, bom na pressão. Pode parecer óbvio (e é), mas o sexo@cidade tem ouvido repetidamente a mesma queixa. Por isso vai uma instrução: Ô Mané, peito não é buzina. Apertá-lo não vai levá-lo a lugar nenhum. Baixaria pode ficar lindo entre os amigos, degustando um bode com uma lapada de cana, mas mulher odeia grossura e só atura para faturar. Depois cansa e joga fora.

3 Mas elas adoram....

Fantasia erótica; dominar a transa; dormir depois do sexo; homem de barriga-tanque; amasso gostoso; sexo sem compromisso, mas sem enrolação; beijo; o que for necessário para levá-la ao orgasmo; conversa inteligente, nunca pedante; ouvintes atentos.

4 Afinal, dói ou não dói

Polêmica de Carnaval tem que ser assim: fofa, sem substância e com muita purpurina. A desse ano foi em cima de duas músicas que falam de um assunto que o sexo@cidade já classificou como tabu: o sexo no qual um dos parceiros (pode ser homem ou mulher) gosta de levar (ou dar) uns tapas. De um lado Ivete Sangalo, relax, diz que não vê problema em cantar o axé-hit Tapa na Cara ou o funk-farofa Tapinha Não Dói. Dou outro, Daniela ‘Politicamente Correta’ Mercury diz que de jeito nenhum, que isso é um estímulo à violência contra a mulher. Será? Já ouvi relatos de marmanjos que adoravam ser amarrados e estapeados (de leve para não marcar). Em suas vidas, encontraram parceiras que se horrorizavam com o pedido, escafedendo-se para nunca mais e parceiras que respondiam: ‘Deixa comigo’ e desciam a mão.

5 Isso sim deve doer

Não mereceu sequer uma linha, no entanto, outro fenômeno comportamental bem mais curioso do que a discussão da prática sadomasô entre quatro paredes. Nas ladeiras de Olinda, foi oficialmente instituído, este ano, o ‘estupro bucal’ (sic). Ele acontecia da seguinte forma: Um grupo de rapazes cerca a garota e força-lhe um beijo na boca. Algumas acham que este ritual de acasalamento faz parte da festa e se divertem com ele (ou até o procuram). Imaginar porque alguém se sentiria envaidecido em ser forçado (ou em forçar) a um contato tão íntimo quanto um beijo é assunto para os psicólogos e sociólogos de plantão. Mas, outras garotas resistem claramente, sem muito sucesso, à investida. Afinal, são rapazes geralmente nutridos à granola, deixando-as em nítida desvantagem física. Tudo isso acontece em meio ao olhar geral e ao consentimento tácito da multidão que se esconde por trás do slogan: ‘É Carnaval’. O psquiatra Paulo da Costa Carvalho Júnior anda aplicando um trabalho interessante chamado de Movie Therapy, ou seja, uma terapia onde os pacientes procuram entender seus impulsos e traumas através da indentificação com os personagens dos filmes. Talvez fosse interessante exibir aos adeptos dessa diversão camisa-xadrez apenas uma cena do filme Thelma & Louise, de Ridley Scott. Nela, o cowboy valentão que tentava estuprar Thelma, sob o pretexto de que ela estava ‘implorando’ por isso, recebe a seguinte lição de Louise, sob a mira de um revólver: “Da próxima vez que uma mulher estiver chorando assim, se debatendo assim, isto significa que ela não está se divertindo”. Uma lição a ser bem usada no futuro.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 05.03.2001
Segunda-feira