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ARTIGO

A carta de Caminha

por LEONARDO DANTAS SILVA*

Ainda dentro das comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil pela esquadra do almirante português Pedro Álvares Cabral, o Recife recebe a carta original do escrivão daquela esquadra Pero Vaz de Caminha, atualmente em exposição no Museu de Arte Moderna da Rua da Aurora.

Acontece que, toda vez que se faz alguma referência ao nosso “primeiro repórter”, responsável pela descrição das delícias da terra recém-descoberta ao rei D. Manuel de Portugal, deixa-se de lado a importância do conteúdo da nossa “certidão de nascimento” para se propalar uma inverdade. A de que o nosso Caminha, aproveitando-se da ocasião, pediu ao rei uma sinecura para o seu genro: ... “a ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de S. Tomé, Jorge Osório, meu genro, no que receberei muita mercê”.

Pobre Caminha, um “membro da burocracia letrada e média, mais próxima da burguesia do que da autêntica nobreza”; um portuense, já cinqüentão, que vivia na época um drama familiar. Seu genro, Jorge Osório, fora condenado a pena de degredo na Ilha de S. Tomé, na costa africana, “por ter assaltado uma igreja e ferido um padre em 1496”. Sensibilizado pelas lágrimas da filha e lamúrias dos netos, Caminha aproveitou aquela oportunidade única, a de escrever ao seu rei, para implorar-lhe a comutação da pena a que estava condenado o seu genro.

Isso foi bastante para que, leitores do nosso tempo, menos avisados daquele drama familiar, acusassem o nosso Caminha de nepotismo. Foi preciso que Pero Vaz de Caminha viesse a morrer em Calicute, por ocasião do ataque dos árabes e hindus à frota de Pedro Álvares Cabral, em 16 de dezembro de 1500, para o que o rei D. Manuel I viesse atender ao seu pedido. Na ocasião, também, vêm a perder suas vidas o feitor Aires Correia, seis frades franciscanos e 50 outros portugueses.

D. Manuel, ao tomar conhecimento da morte de Caminha, atendeu de imediato ao seu desejo: José Osório foi perdoado de seu crime, em 1501, e assim pôde retornar a Portugal.

A carta de Pero Vaz de Caminha é um dos mais importantes documentos acerca dos descobrimentos portugueses ao tempo do rei D. Manuel I. Trata-se de um texto superior, do ponto de vista antropológico, aos relatos de Américo Vespúcio, cujas sucessivas edições alcançaram grande sucesso na primeira metade do século XVI, como bem demonstra este trecho traduzido pelo então diretor do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Antônio Baião, recentemente publicado pela Editora Massangana da Fundação Joaquim Nabuco, in A Viagem de Pedro Álvares Cabral:

“A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, bons rostos e narizes bem feitos; andam nus, sem nenhuma cobertura, não se importam de nenhuma cousa de cobrir, nem mostrar suas vergonhas e estão, acerca disso, com tanta inocência como têm ao mostrar o rosto. Ambos traziam os lábios de baixo furados e metidos por eles ossos brancos do comprimento de uma mão travessa e da grossura de um fuso de algodão e agudo na ponta como um furador; metem-nos pela parte de dentro do lábio e, o que lhe fica entre ele e os dentes é feito como um roque de xadrez e de tal maneira o trazem encaixado que os não incomoda, nem lhes perturba a fala, nem o comer, nem o beber. Os cabelos são corredios e andavam tosquiados de tosquia alta, mais que sobre o pente de bom tamanho e rapados até por cima das orelhas. Um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, por detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarela que seria do comprimento dum conto, mui basta e cerrada, que lhe cobria o toutiço e orelhas, a qual andava pegada nos cabelos pena a pena com uma confeição branda como cera e não era, de maneira que andava a cabeleira mui redonda, basta e igual, que não fazia falta mais lavagem para a levantar. (...) Entre eles andavam três ou quatro moças, bem jovens e bem gentis, com os cabelos muito pretos e compridos pelos ombros e as suas vergonhas tão altas e cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de a nós muito bem olharmos, não nos envergonham. (...) Uma daquelas moças era toda pintada de alto a baixo com aquela tintura e tão bem feita e tão redonda em suas formas, tão graciosas, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhes tais feições, causaria pena não terem as suas como ela....

Ao contrário dos relatos de Américo Vespúcio, a carta de Caminha permaneceu no esquecimento até 1793, ano em que seu original foi encontrado na Torre do Tombo (Lisboa) por Juan Batista Muñoz, sendo pela primeira vez divulgado pelo padre Ayres de Casal, quando da edição do seu livro Coreografia Brasílica (Rio de Janeiro, 1817), trezentos anos depois do achamento do Brasil.

*Leonardo Dantas Silva é jornalista e historiador


Jornal do Commercio
Recife - 05.07.2001
Quinta-feira