Festival de Dança do Recife tem atraído uma platéia democraticamente diversificada
por DARIO BRITO
Além da história oficial de um grande evento, há passagens paralelas que, se não registradas, perdem-se no tempo. Na noite de abertura do VI Festival de Dança do Recife, no último sábado, três personagens se cruzaram. De um lado, um bailarino pernambucano que hoje faz parte de uma das maiores companhias de dança do País. Do outro, dois espectadores, escolhidos aleatoriamente, que acompanhavam as apresentações no Morro da Conceição. Do choque entre esses mundos, as impressões a partir de ângulos diferentes sobre um momento.
Ricardo Almeida, 19 anos, entrou para a equipe do Balé Teatro Guaíra há dois anos. Saiu do Recife em 1997 para tentar a vida em Curitiba e, após alguns tropeços e também prêmios conquistados em festivais de dança, chegou ao grupo dirigido por Suzana Braga. Curiosamente, o bailarino nunca havia ido ao Morro da Conceição. “É muito louvável essa iniciativa de trazer o espetáculo aonde o público está. Por outro lado, estou ansioso para ver a reação do público com a coreografia que vamos apresentar”, revelou, momentos antes do espetáculo.
A coreografia em questão é Orikis, de Ana Vitória. A peça resgata elementos da cultura africana, com uma roupagem urbana que se desvenda marcante e sem estereótipos. Entram em cena oito bailarinos, que centralizam seus movimentos na parte superior do corpo, usando somente calças jeans. Os braços são leves, em movimentos abertos; a pélvis, empurrada para baixo, um pouco mais pesada. A marcação é percussiva (trilha sonora do sul-africano Manuel Wandji) e faz referência aos rituais do candomblé.
Os rapazes começam os movimentos pélvicos e parte dos cerca de mil espectadores solta ‘gritinhos’ entusiasmados (parte feminina e jovem dos espectadores, vale salientar). Uma delas, porém, fica atenta à apresentação. É Danielle Rodrigues, 18 anos, moradora do Morro da Conceição e ex-dançarina do grupo Raízes de Quilombo: “Gostei do espetáculo. Há uma dose muito grande de sensualidade. Os gestos são reveladores, muitas vezes os bailarinos cobriam os olhos e a boca. Estavam impedidos de ver, de ouvir. A reação do público é natural. Acho que eles nunca haviam visto isso”.
Já o gerente regional da Panasonic, Fred Alecrim, 46 anos, não foi tão receptivo à proposta do espetáculo. “Vi o Balé Guaíra ano passado, na praça do Arsenal e eles não foram aplaudidos. É bom porque é inusitado, uma cultura diferente. Particularmente, não gosto de coisas unilaterais. Nessa coreografia só há homens dançando. Não é nada machista, mas por que não entram depois oito mulheres fazendo a mesma coreografia?”, questionou.
O fato é que o grupo foi ovacionado após a apresentação – que incluíu também a peça Primeira Aurora, um trecho do espetáculo O Segundo Sopro, de 1999, que marcou uma fase de renovação do Guaíra. Na mesma noite, apresentaram-se ainda os grupos Didàgbá Dìdu, do Morro da Conceição; o Grupo Experimental, com parte de Quincunce; a Cia. Forrobodó de Dança Tradicional, com seus folguedos populares do Nordeste e o grupo cultural Pernambuco Street Dance, com dança de rua.