O processo de canonização do bispo pernambucano Dom Vital foi iniciado há 70 anos. Ontem, encerrou-se a fase diocesana, em celebração na basílica onde estão os restos mortais do religioso
por NARA LÚCIA
Uma celebração litúrgica marcou ontem o encerramento da fase diocesana do processo de canonização do bispo pernambucano Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, um dos protagonistas da chamada Questão Religiosa, conflito entre a Igreja Católica e o Império brasileiro por causa da maçonaria. A missa, prestigiada por arcebispos, bispos, padres e religiosos, foi rezada à noite na Basílica da Penha, bairro de São José, onde se encontram os restos mortais do candidato a santo.
Um protesto na frente da basílica, realizado por paroquianos de Boa Viagem contra a demissão do padre Marcos Ferreira do Carmo, surpreendeu o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso. Quando chegou acompanhado do cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugênio Sales, ele encontrou faixas pedindo explicação para a saída do pároco.
“Dom José, por que afastou o padre Marcos?”, “Paroquianos de Boa Viagem solidários com padre Marcos” e “Comunidade católica traída pede justiça” eram algumas mensagens seguradas pelos manifestantes. O padre, da ordem religiosa beneditina, trabalhou nove anos e meio na paróquia. Numa carta de despedida aos paroquianos, ele disse que desconhecia o motivo de seu afastamento. Sobre a demissão do pároco, Dom José foi lacônico: “Nada a declarar e ponto final”.
Ao iniciar a cerimônia, o arcebispo de Olinda e Recife lembrou que ontem era o aniversário dos 123 anos da morte de Dom Vital, “que deu a vida pela Igreja”. Foi Dom José quem reiniciou, em 1992, a causa pela santificação do 21º bispo de Pernambuco, morto aos 33 anos, no dia 4 de julho de 1878, na França. O processo foi iniciado há 70 anos.
O cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, que presidiu a celebração, leu para os fiéis, que lotaram a basílica, um resumo da vida de Dom Vital. Recordou que por decreto imperial, em 1871, ele se tornou bispo de Pernambuco e que em 1874 foi condenado a quatro anos de prisão por não retroceder em seus atos, como desejava o governo imperial. Quando assumiu, Dom Vital encontrou parte do clero ligada à maçonaria. Descontente, solicitou aos maçons que optassem entre a maçonaria e as irmandades religiosas.
“Sua beatificação será a proclamação dos méritos de um grande bispo. Dom Vital seguiu os passos do Senhor, defendendo as ovelhas de seu rebanho”, disse Dom Eugênio, que usou, na celebração, o báculo (cajado) pertencente a Dom Vital. A peça faz parte do museu dedicado ao bispo pernambucano, que funciona na Basílica da Penha. Dom Vital começou a vida religiosa no Convento da Penha como frade capuchinho.
A fase diocesana do processo de canonização constou da seleção de material e ouvida de testemunhos sobre a vida do bispo. Desde o dia 18 de maio deste ano, um tribunal eclesiástico e uma comissão histórica executavam a tarefa, com prazo de encerramento para ontem, data da morte de Dom Vital.
O material será enviado à Congregação das Causas dos Santos, no Vaticano. Se os autos do processo forem aprovados, o candidato a santo receberá o título de venerável. Com isso, o processo voltará à diocese de Olinda e Recife, para que sejam colhidos novos depoimentos.
Para Dom Vital se tornar beato, primeiro passo para a santificação, são exigidos dois milagres comprovados. Para se tornar santo, a comprovação de um novo milagre. Com a autorização do Vaticano para a abertura do processo, o bispo pernambucano é considerado servo de Deus. Isso significa que já se pode elaborar uma oração em nome dele.