SÃO PAULO – A pressão sobre o câmbio voltou ontem com força total: o dólar subiu 2,98%, cotado a R$ 2,422, na máxima do dia, num pregão em que o Banco Central (BC) ficou fora dos negócios, apenas assistindo à disparada das cotações. As incertezas em relação à Argentina e o comportamento errático da autoridade monetária nos últimos dias levaram as tesourarias de bancos a atuar na ponta de compra, um movimento ampliado pela procura por proteção cambial por parte de algumas empresas. Foi a quarta alta seguida do dólar e a maior registrada num só dia desde 20 de abril de 99. A moeda acumula valorização de 4,76% no mês e de 24,14% no ano.
Com a nova escalada do dólar e a decisão do BC de não intervir no mercado, os investidores passaram a cogitar que a instituição pode aumentar a Selic a qualquer momento para tentar deter a disparada das cotações, como disse o diretor de Asset Management e Pequisa Econômica do Banco Inter American Express, Marcelo Allain.
As taxas dos contratos futuros de DI de agosto – que têm prazo mais curto – pularam de 19,30% para 20,44% ao ano. O mercado passou a especular que o BC pode convocar uma reunião extraordinária do Comitê de Política Monetária (Copom) para elevar a Selic. O dólar abriu pressionado, refletindo as preocupações do mercado com a deterioração do quadro político da Argentina. Para o diretor-vice-presidente do BNP Paribas, Carlos Calabresi, diante da intensificação dos temores quanto ao país vizinho, uma intervenção do BC ontem dificilmente teria sucesso.
Segundo ele, não adianta gastar munição agora, seja atuando mais agressivamente no câmbio, seja aumentando com mais força a Selic. Para Calabresi, medidas mais drásticas devem ser tomadas apenas se houver uma ruptura na Argentina. “O país não cresce, tem uma situação fiscal frágil e o cenário político está muito complicado. O mundo financiou por dez anos um país que gasta mais do que arrecada, mas essa disposição parece estar no fim”, diz.
Marcelo Alain, por sua vez, entende que o BC tem, sim, de intervir com mais força no câmbio, para confirmar a mudança de atitude divulgada há duas semanas, quando o presidente da instituição, Armínio Fraga, anunciou a disposição de atuar com firmeza no mercado para furar a bolha especulativa.