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Médicos para o interior

Ao mesmo tempo em que os meios de comunicação insistem na necessidade de uma medicina pública ágil e exibem enormes filas de enfermos nos corredores dos hospitais, algumas pessoas mais velhas parecem ter saudade de uma época em que os médicos eram poucos, mas conheciam seus pacientes, atendendo-os com cautela e longamente. Em certo tempo circulou no interior do Brasil o livro Aforismos de Medicina e Cirurgia Práticas, de autoria do doutor Antonio da Costa Paiva (Porto, 1837), aconselhando em sua introdução: “Cumpre que o médico examine com todo o vagar não só o estado presente do enfermo, mas também a sua vida passada; cumpre que atenda à influência da atmosfera, à profissão do doente, à natureza da estação; que observe o estado dos diferentes órgãos, e que enfim não seja tão parco do tempo e das observações de que precisa para somente julgar”. Sábios conselhos, impraticáveis nos dias de hoje, quando o tempo é curto e o número de pacientes enorme.

Os hospitais, principalmente nos grandes centros, estão cheios de doentes aflitos esperando a sua vez. E muitas cidades do interior não dispõem de médicos permanentes, dando-se os seus habitantes por felizes quando são atendidos uma vez por semana, em precários postos de saúde. Mas, há algum tempo, vem o Ministério da Saúde anunciando um plano – o Programa de Interiorização do Trabalho em Saúde (PITS), pelo qual o Governo federal contratará duplas (médico e enfermeiro), com uma gratificação adicional, se assumirem o compromisso de morar em municípios carentes de serviços médicos. As despesas seriam divididas com a Prefeitura, que se encarregará dos gastos com moradia e alimentação dos contratados. Os salários, R$ 3.150,00 para o enfermeiro e R$ 4.500,00 para o médico, serão pagos pelo Governo federal.

Foram anunciados alguns critérios para a escolha das cidades que receberão as duplas de profissionais da saúde, a começar pelo alto índice de mortalidade infantil e ausência no local do Programa Saúde de Família. Abertas as inscrições, a grande procura recaiu sobre profissionais com mais de dez anos de trabalho e aposentados, contrariando as expectativas dos coordenadores do PITS, que desejavam mais recém-formados. Cremos que quem saiu ganhando foram as populações pobres das cidades selecionadas, que contarão com médicos e enfermeiros experientes.

Esse programa de interiorização dos serviços médicos não agradou a alguns representantes dos universitários de medicina, que o acusaram de eleitoreiro e defendem o que chamam Serviço Civil Voluntário. Mas, todos sabemos que todas as ações governamentais voltadas para as populações pobres, quando em período pré-eleitoral, sofrem este tipo de acusação. Se o governo intimidar-se diante desse estigma, quem vai sair perdendo serão as populações sem recursos dos locais mais distantes.

Apenas oito comunidades pernambucanas foram escolhidas, inicialmente. Ainda é muito pouco. Mas, pelo menos nelas será amenizada uma situação que corresponde a séculos de concentração de bens e serviços nos grandes centros litorâneos.

Se a Constituição do Brasil exige assistência sanitária para todos, as deficiências do sistema devem ser reparadas. Eis um dos papéis importantes do governo, olhar para o homem do interior.


Jornal do Commercio
Recife - 05.07.2001
Quarta-feira