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DECORAÇÃO
Os bons lucros do bom design

Pesquisa diz que empresas que investiram em desenhos mais arrojados aumentaram suas vendas. Mudou o consumidor ou mudaram os preços?

por FABIANA MORAES

Já era o tempo em que um móvel com bom desenho era diretamente ligado ao supérfluo e, pior, à futilidade. Segundo uma pesquisa da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), 54% das empresas decidiram aliar, a partir de 1996, desenhos arrojados e inovadores aos seus produtos. Resultado: quem investiu na área conseguiu reduzir os custos em 41% e mais: 75% dessas empresas ainda aumentaram suas vendas. A explicação para o fenômeno é simples: mais informação, mais interesse pelo novo e a súbita chegada dos profissionais da ambientação (decoradores, arquitetos) aos lares médios brasileiros.

A última questão citada é, inclusive, um dos fatores que levam o arquiteto André Wanderley a acreditar que o bom design, definitivamente, está mais próximo do consumidor comum. “Móveis dessa linha representam um ótimo investimento: duram mais e são atemporais”, diz. Por atemporal leia-se objetos que não soam datados mesmo que tenham sido produzidos há bem mais de quatro décadas (vide a famosa cadeira Barcelona ou a Ant). Ainda assim, ainda segundo Wanderley, o consumidor tem certo medo de investir em peças assinadas. “Eles até gostam de certos móveis e objetos inovadores. Mas terminam comprando clássicos com a desculpa ‘isso não combina com a minha casa’.”

A gerente da loja Casapronta, Patrícia Oliveira, concorda no que se refere à maior inserção do arquiteto frente ao público. “Há 15 anos, quando abrimos a loja, nosso maior cliente era o consumidor final. Apenas 10% deles chegavam acompanhados de algum profissional. Hoje, são 80%.” Patrícia lembra que, hoje, as pessoas estão mais familiarizadas com os produtos, mesmo que não saibam quem são os seus autores. “Algumas até chegam à loja em busca ‘daquela cadeira que tem uma forma meio ‘assim’ , enquanto desenham a tal cadeira com as mãos”, brinca. A vendedora da loja Dominici, Karina Magalhães, diz que as luminárias (especialidade da casa) mais vendidas são aquelas de desenho arrojado. “É claro que muitos clientes ainda preferem objetos mais ‘comuns’, mas recebemos mais visitantes que preferem linhas inovadoras”, comenta. Na Dominici também se repete o ‘fenômeno arquiteto’. “São eles que apresentam esses produtos ao cliente, trazendo-os à nossa loja”, continua.

INVESTIR PARA LUCRAR – O fator preço ainda é, infelizmente, um impedimento para adquirir esses produtos. Autores nacionais são tão ou mais caros do que diversos nomes internacionais. É importante lembrar que muitas das peças de nome tupiniquim são feitas na Itália, ainda a meca do design mundial. Um exemplo: um móvel como o aparador Looping, dos conceituados designers Luciana Martins e Gerson de Oliveira (autores da premiada poltrona Cadê) pode custar cerca de 7 mil. A citada Barcelona, de Mies Van der Rohe, sai por cerca de R$ 5 mil.

Para o professor do Departamento de Design da Universidade Federal de Pernambuco Charles Bezerra, a idéia de que o design é algo caro está defasada mundialmente, muita embora ainda seja comum no Brasil. “Nos Estados Unidos, design é sinônimo de lucro, eles estão sempre visando o mercado. Existem grandes lojas que investem em peças baratas com um desenho inovador”, continua.

Para ele, as empresas brasileiras ainda não sabem usar o desenho como ferramenta de negócio. “Todo mundo sabe que é fundamental, mas não existe investimento.” Bezerra acredita que os designers brasileiros são muito influenciados pelos nomes europeus e que os profissionais da área de ambientação, por sua vez, se baseiam geralmente em móveis assinados por nomes famosos (que, no caso, já viraram grife). Esse último fator é um dos responsáveis para que o preço das peças seja elevado.

SEGUROS E BONITOS – Para o chefe do Departamento de Design da UFPE, Marcelo Soares, a aceitação por parte do mercado brasileiro – e pernambucano, em especial – pelos objetos assinados tem uma explicação bastante prática: eles possuem mais segurança e qualidade. “As empresas que investiram em design estão vendendo mais porque esses objetos incorporam estética visual à qualidade. As formas são mais agradáveis e seguras”, diz. As tais ‘formas agradáveis’ citadas por Marcelo também são responsáveis pela diferenciação do produto em relação às centenas de milhares de outros objetos produzidos anualmente. “Os móveis e objetos que sobrevivem ao tempo não precisam apenas ter qualidade, e sim algo que o modifique dos outros. Funcionalidade e bom desenho são fundamentais”, continua.

SERVIÇO:

FLORENSE: 3301.3253
DOMINICI: 3466.2522
CASAPRONTA: 3465.0010
AMPARO 60: 3465. 4050


Jornal do Commercio
Recife - 01.07.2001
Domingo