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PAIXÃO
Meu carro, meu xodó

Clássicos são clássicos. Seja na música, no cinema ou até mesmo nas pistas, as grandes produções despertam paixões nos quatro cantos do mundo. Não seria diferente com os carros que, em muitos casos, são elevados ao nível de obras de arte. Tanto que a Ford anunciou, recentemente, o relançamento de um de seus carros mais emblemáticos, o Modelo T. Foi o primeiro veículo a ser construído numa linha de montagem industrial, em 1914. A série limitada será vendida a colecionadores e, com status de arte, naturalmente terá destino certo nos museus. Ele também foi produzido no Brasil entre 1919 e 1927. Foi o Fusca do início do século, pois era acessível pelo baixo custo e, assim como o redondinho da Volkswagen, que ‘responde’ pela alcunha de Fusquinha, ganhou um apelido carinhoso, hoje um tanto pejorativo: calhambeque. Enfim, assim como os dois populares, outros modelos despertam interesse de colecionadores ou simplesmente apaixonados.

por LEONARDO SPINELLI

É comum conhecer donos de carros malucos por seus veículos. É muito fácil, também, identificar um deles. Basta reparar na jante cromada, na película escura, no som, enfim, nos apetrechos que ‘envenenam’ o carango. Os mais ‘frios’ comparam o carro a uma outra família. Não como um amor clandestino, mas sim por causa das despesas com manutenção. Nenhum deles, no entanto, tem uma paixão tão grande quanto os amantes dos carros antigos. Quem tem um, desde o mais simplório cururu vira-lata ao mais sofisticado dos carros com ‘pedigree’, sabe o que representa o amor por uma máquina.

Esse é o caso do engenheiro industrial Fernando Narciron, integrante do Clube do Automóvel Antigo de Pernambuco. De tão aficionado pelos ‘bichos’ de quatro rodas, montou uma oficina especializada em carros com mais de 30 anos de fabricação. Narciron chama sua oficina de ateliê, que remete ao trabalho manual, quase artesanal. A última obra de arte produzida pelo ateliê de Narciron, foi a recuperação de um Rolls Royce 1950 – sim, existem os emblemáticos RR rodando pelo Nordeste.

A história desse RR é ‘trágica’. O proprietário do clássico veículo dirigia tranqüilamente quando um Fiat Uno, fugido da polícia, bateu de frente. O carro chegou na oficina completamente deformado em dezembro do ano passado. Seis meses depois ele está como saiu da fábrica inglesa há 60 anos.

Apesar do serviço caro, o engenheiro afirma que o seu ateliê ainda não deu lucro. “Gosto de carro antigo, por isso montei a oficina. Carros como esse exigem dedicação, não são feitos apenas para tê-los. Temos de cuidar, por isso montei o ateliê, pois não posso ter todos”, explica resignado.

Mesmo sendo proprietário de uma modesta coleção com uma moto (Java 1958, nacionalidade tcheca) e dois carros, um deles Aerowillys nacional 1962, Narciron desperta inveja com o seu Lincoln 1949 conversível, um dos clássicos norte-americanos. Para se ter uma idéia da importância da marca, o Lincoln é o carro presidencial dos EUA. John Kennedy morreu num deles. Narciron só trocaria este por um Thunderbird 1955, clássico esportivo norte-americano, que hoje não sai por menos de US$ 80 mil.

Amor e dedicação são as duas palavras que guiam os condutores. As dificuldades vêm na contramão. A maior delas é conseguir peças de reposição e acessórios originais, afinal, esses carros já não são produzidos há décadas. Na maioria das vezes, a solução é mandar fazer, só que o custo é alto. Falando em custo, a gasolina também é um grande empecilho. Além da baixa qualidade, não existe carro com mais de 30 anos ecologicamente correto. Eles gastam mesmo. Na média, 5 km/l. E haja monóxido de carbono.

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Jornal do Commercio
Recife - 01.07.2001
Domingo