![]() |
Demônios não exorcizados
por JURACY ANDRADE
Esse caso da divulgação de documentos secretos do Exército, apreendidos em Marabá (PA), pelo Ministério Público (MP), via Polícia Federal, é didático. Numa democracia, todas as pessoas e instituições estão submetidas à Constituição, à lei, aos detentores do poder estabelecido (dividido sabiamente em três pelo filósofo francês Montesquieu). Num país esculhambado de nascença, como o Brasil, Constituição, lei, autoridade, é tudo descartável. Quem tem uma arma na mão, seja policial, militar, coroné ou, ultimamente, simples marginal, se atribui, por conta própria ou incitado por sua corporação, um poder de vida e morte, física e espiritualmente, sobre pessoas e instituições. No caso dos coronés (da roça e do asfalto) e das polícias, de um modo geral, essa postura arbitrária prossegue impávida. Já no caso dos militares, após a aventura trágica do golpe de 1964, radicalizado em 1968, o Exército, a Marinha de Guerra e a Aeronáutica parecem haver reconhecido erros de sua responsabilidade e mergulhado em suas tarefas profissionais. Até a criação de um Ministério da Defesa dirigido por um civil eles aceitaram (apesar da provocação do xogum, que nomeou para exercer o cargo, antes do atual ministro, um político envolvido com as máfias de seu Estado; coisas da modernidade).
A revelação daqueles papéis, em que opositores do governo e dissidentes de vários calibres são tratados como inimigos da pátria e do Estado, passíveis de eliminação, como nos velhos tempos, veio mostrar que nem todos os fantasmas e demônios do passado foram exorcizados. Acredito que a ocasião é muito propícia para que as forças armadas demonstrem que estão realmente submetidas à lei e respeitando os direitos dos cidadãos, sejam eles civis ou militares, socialistas ou liberais, mesmo os equivocados que pretendem incendiar o País de acordo com os caprichos de líderes fajutos, que não aprenderam a lição da história. A ordem do dia que foi divulgada no Dia do Soldado não vai nessa direção, pois critica duramente o MP e a imprensa. Lembre-se que, no tempo da ditadura, havia corrução, como hoje (apenas um exemplo), só que a imprensa não podia noticiar. O que os soldados deveriam criticar é a entrega do Sivam aos Estados Unidos, quando ficou comprovado que a tecnologia brasileira está apta a produzir quase tudo de que necessita esse projeto; é a capitulação a interesses estrangeiros (Alcântara etc); é a desnacionalização da nossa indústria, o desmonte do patrimônio público. Sem quebrar a hierarquia, sem golpe, simplesmente como cidadãos que querem o bem da pátria.
PS - Hoje tem alvorada artística pelo aniversário do padre Edvaldo, mas a comemoração mesmo vai ser quarta-feira, com missa às 19h30, seguida de recepção que congregará em volta do pároco de Casa Forte os muitos amigos e amigas que ele tem. * Reconduzido ao cargo de procurador geral da República, por serviços prestados ao xogunato desde o Primeiro Reinado, o dr Geraldo Brindeiro deu uma desengavetada na folha corrida de Jáder Barbalho, candidato de Fernando 2º à Presidência do Senado hoje caído em desgraça; mas já voltou a engavetar. * Domingo 16, se inicia o 3º Colóquio Internacional Paulo Freire, que vai até a quarta-feira seguinte. Comemorando os 80 anos do nascimento do mestre, terá 7 conferências, 16 mesas redondas, 60 comunicações orais e 4 minicursos, sobre o tema geral ‘Paulo Freire - Pedagogia e reinvenção da sociedade’. Será no campus da UFPE. Vamos apoiar, fazendo com que Paulo Freire seja profeta também em sua terra.
Juracy Andrade é jornalista (juracy@jc.com.br)
|
|