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LIVROS
Um papo sério sobre o SAMBA

No livro Feitiço Decente, o professor Carlos Sandroni vai fundo nas origens e evolução da música que é expressão da nacionalidade brasileira

por JOSÉ TELES

Feitiço Decente (Jorge Zahar Editor, 247 páginas), que o músico e doutor em musicologia Carlos Sandroni, professor do Departamento de Música, na UFPE, lança na próxima quinta-feira, na Livraria Arraial, é um livro diferente de outros do gênero. Sua abordagem não é meramente biográfica, nem simplesmente histórica. Sandroni procura traçar a evolução do samba, desde o “batuque de negros” até se tornar a expressão da nacionalidade, mostrando os links que unem o mais popular dos ritmos nacionais ao lundu, ao maxixe, ao fado e ao tango brasileiros, tomando como base a métrica: “O argumento principal deste livro é que existe uma ligação entre o tipo de contrametricidade (ou concepção do que seja música sincopada) configurada pelo paradigma do tresillo e certa concepção do afro-brasileiro e do tipicamente brasileiro”. O tresillo é um ritmo assimétrico de origem cubana, que aparece em muitas manifestações musicais latino-americanas de origem africana.

O samba tal qual hoje o conhecemos teve seu formato estabelecido nos anos 30 por compositores do bairro de Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Diferenciava-se do samba-amaxixado de Sinhô, Donga, João da Baiana, por uma pulsação rítmica mais complexa. Porém, até chegar ao Estácio, o livro de Sandroni leva o leitor a várias estações.

Com alguns capítulos difíceis para quem não entende os meandros da música escrita, com suas colcheias, semicolcheias, frases anacrústicas, nem por isso o livro deixa de ser leitura amena e didática. Sandroni não nega o professor que é. No capítulo dedicado às origens do lundu, ele cita trechos de escritores do século 19, pesquisadores como Mário de Andrade, Sérgio Cabral e José Ramos Tinhorão. Explica de forma clara as diferenças entre modinhas, fados, e tangos brasileiros e seus correspondentes (muito mais homônimos) portugueses e argentinos, temperando o texto com amenidades, entre as quais a etimologia de algumas palavras. Quindim, por exemplo, hoje conhecida como um doce, significava no início “requebros, graças típicas, peculiares e características de uma menina moça”, ensina o autor.

Primeira forma afro-negra que alcança todas as classes brasileiras e se torna a primeira música nacional, o lundu tem laços de parentescos com o minstrels song americano. Ambas são feitas por negros. Quando o lundu-canção reinava como a música de salão do Rio de Janeiro (sobretudo), a polca aportou no Brasil e foi imediatamente abrasileirada, ou “transubstanciada” (este, aliás, o destino de todos os gêneros estrangeiros que aqui chegam, coisa que só os xenófobos não conseguem ver). A polca é o elo entre o lundu e o maxixe (logo surgiriam o gênero polca-lundu). E o samba?

A palavra samba é encontrada em diferentes pontos da América. Curiosamente muito entre os cariocas, conforme resalta Sandroni: “De todo modo, no Rio de Janeiro, então a capital do país, samba era uma palavra quase desconhecida até o último quartel do século 19”. Começaria a ser ali disseminada a partir das lendárias reuniões nos saraus das tias baianas, a mais famosa delas, Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata. Foi lá que surgiu o que é considerado o primeiro samba, Pelo telefone, oficialmente atribuído a Donga, mas que na realidade é uma criação conjunta, e que rendeu a primeira grande polêmica da música popular brasileira.

O autor dedica um capítulo inteiro a Pelo telefone, que nem vem a ser o primeiro samba gravado, até porque toda sua estrutura tem muito mais a ver com o maxixe. O samba como o conhecemos, desceu do morro para o asfalto, e mudou de métrica, quando os compositores deixaram de freqüentar as festas das tias baianas para compor nos botequins, essa outra instituição carioca. Conversa de botequim, de Noel Rosa sintetiza essa interação entre o músico e o bar, também chamado cariocamente de “escritório”. Numa entrevista ao crítico e pesquisador Sérgio Cabral, trancrita em Feitiço decente, Ismael Silva, um dos bambas do Estácio, berço do samba moderno, explica onomatopaicamente a diferença fundamental entre o samba que ele e compositores como Bide faziam e o samba de Donga, Sinhô: “O samba era assim: tan tantan tan tantan. Não dava. Aí a gente começou a fazer um samba assim: bum bumm paticumbumprugurundum”.

Lançamento do livro Feitiço Decente, de Carlos Sandroni. Dia 13, a partir das 19h30m, na Livraria Arraial, Estrada do Arraial, 2350, Tamarineira

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Jornal do Commercio
Recife - 08.09.2001
Sábado