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MEMÓRIA
Família Condé começa a abrir o baú

Inauguração da galeria de arte este mês foi o primeiro passo para tornar público o valioso acervo do colecionador João Condé, dono dos Arquivos Implacáveis

por CELSO RODRIGUES
Especial para o JC

A projeção nacional de Caruaru não é apenas uma equivocada conseqüência da arte popular de Vitalino. Nem do forró. O mestre do Alto do Moura significa, na verdade, um dos resultados altamente positivos do apego às origens e da ação otimista dos irmãos Condé (Elysio, João e José Condé), ao universo cultural da Capital do Agreste, que eles trocaram, ainda no começo da juventude, para estudar no Recife, na Bahia e no Rio de Janeiro. E o retomo se fez auspicioso, em livros, museus e presença dos três na força da grande imprensa nacional. Caruaru, há mais de 50 anos, ocupava esses espaços privilegiados.

Elysio Condé, médico e escritor, ao lado dos irmãos, editou o Jornal de Letras; então com recursos próprios fez uma publicação tão expressiva para as letras e as artes do Brasil, que mereceu do filósofo, ensaísta, ficcionista, dramaturgo e militante de esquerda Jean-Paul Sartre o elogio histórico de que se tratava de uma iniciativa cultural que fazia bem ao resto do mundo. Inclusive aos intelectuais franceses.

João Condé, apelidado pelo crítico Agrippino Grieco, como “gari da literatura”, construiu ao longo de muitos anos os Arquivos Implacáveis.

Ainda recentemente (3 de junho de 2001), o jornalista e escritor Joel Silveira dedicou aos Arquivos Implacáveis uma página do suplemento cultural da Gazeta Mercantil, destacando: “Dois fatores muito contribuíram para esse vertiginoso crescimento dos arquivos de Condé: primeiro, o fato de os Implacáveis terem ganho fama nacional e internacional, o que resultou da contribuição espontânea de dezenas de doadores; segundo, é que Condé tomou-se, de 1962 para cá, um infatigável viajante, com passeios anuais e até mesmo semestrais à Europa (seu filho mais velho, João Luís, estuda desenho industrial em Ulm, na Alemanha), e de cada viagem ele traz novas peças para o seu museu, principalmente de Portugal, onde ele é tão conhecido e seus Arquivos tão famosos quanto no Brasil.”

Conta Joel Silveira: “Álvaro Lins oferece a Condé os originais de sua História Literária de Eça de Queirós com estas palavras: ‘Condé - A estas páginas sinto-me tão inteiramente ligado como não me sucederá, tenho certeza, com nenhum outro dos meus possíveis livros. Escrevi esta pequena história de Eça de Queiros ainda na província - anônimo, sem estímulo e numa pobreza franciscana - quando nem sabia que era escritor (ainda hoje duvido que o seja.) Você talvez tenha as cartas que lhe escrevi nessa época como a um amigo fraternal. (Nota do autor desta reportagem: Condé tem as cartas.) Elas mostram que eu não acreditava no valor do livro, não acreditava que obtivesse sucesso. Imagine então as dúvidas, os desânimos, as emoções, as angústias - tudo o que sentia ao escrever. Por isso não posso ainda hoje olhar estes originais, um pouco desses sentimentos desencontrados. Mas não posso negar que agora acho os meses em que fiz este Eça os mais felizes da minha curta e tão banal existência de escritor. Álvaro.’”

Concluiu Joel Silveira: “Dezenas de pastas guardam cartas de todo mundo: João Ribeiro, Claudel, Gilberto Freyre, Aníbal Machado, Felipe de Oliveira, Álvaro Moreira, Murilo Mendes, José Lins do Rego, Graciliano, Coelho Neto, Cícero Dias. E, para terminar, uma pergunta válida, aliás, três: por onde andam os Arquivos de João Condé? Quem os herdou? E o que fez deles? Só espero que estejam bem guardado.”

Coube a Roberta Sampaio, jornalista e mestrada do curso de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo, que redige atualmente tese sobre a edição dos Arquivos Implacáveis, responder fraternalmente ao jornalista Joel Silveira, também numa página inteira da Gazeta Mercanti4 em sua edição de primeiro de julho do ano em curso: “Os Arquivos Implacáveis deverão ser apresentados ao público, pela primeira vez, no próximo ano, quando a família Condé, a herdeira do acervo, planeja realizar uma exposição no Rio em homenagem aos 90 anos de nascimento do colecionador. O espaço do evento ainda não foi definido”. “Já houve contatos por parte de algumas instituições, mas nada foi fechado”, afirma Maria Alice Condé, filha caçula do arquivista, morto em 1966. Somente após o levantamento a família terá a real dimensão do material, resultado de 60 anos de uma apaixonada militância de João Condé no meio da literatura.”

A exposição de inauguração da Galeria Condé, que aconteceu na terça-feira, 4 de setembro, reuniu obras dos seguintes artistas: Carlos Scliar, Cícero Dias, Gonçalo Ivo, Juarez Machado, Reynaldo Fonseca, Sérgio Ferro e Sylvia Dias.

Em minhas mãos, o belo e luxuoso convite para o evento. Convite para se guardar, no qual se registra a seguinte apresentação de Cicero Dias:

“Fiquei emocionado com o convite para fazer a apresentação da sua galeria, reavivando lembranças que tenho do meu querido amigo João Condé, seu pai, que estava comigo em Paris, em 1952, quando você nasceu no Rio de Janeiro. Recordo que compramos um livro de paisagens parisienses e que, com vários amigos comuns que lá estavam, como os intelectuais Gilberto Amado, Sérgio Milliet, José Lins do Rego, Carlos Lacerda e vários outros cuja memória agora me falha, escrevemos uma dedicatória comemorando o seu nascimento.

O tempo foi passando, e você, João Carlos, foi assimilando, por meio de seu pai, o gosto pela pintura e pelas artes de modo geral. Desde pequeno, ia a exposições e leilões, convivendo com pintores como Portinari, Pancetti, Di Cavalcanti, Djanira, Mílton Dacosta, Iberê Camargo, Marcier e Santa Rosa, amigos de seu pai.

Lembro-me das vezes que você acompanhava seu pai a Paris e, ainda hoje, tenho o prazer de recebê-lo sempre que visita essa cidade.

Vejo a abertura da sua galeria como a continuação de uma trajetória iniciada por seu pai: o apreço pelas artes e a dedicação de manter viva uma pinacoteca de destaque no cenário nacional. Com a exposição das pinturas de Reynaldo Fonseca, Carlos Scliar, Juarez Machado, Sérgio Ferro, Gonçalo Ivo e Sylvia Dias, além das minhas, você reúne um belíssimo acervo e põe à disposição do público obras significativas de diversas facetas da pintura brasileira.

Renovo os votos de sucesso da dedicatória feita no livro em que comemoramos o seu nascimento a esta galeria, feita pela arte e pela nossa amizade.”

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Jornal do Commercio
Recife - 08.09.2001
Sábado