LG_jc.gif (3670 bytes)

MEMÓRIA II
Vítimas eram cúmplices de furtos do colecionador

Depois do depoimento de Cícero Dias para a inauguração da Galeria Condé, só resta acrescentar o que sobre João Condé Filho, depois de considerá-lo, com humor, “a figura mais chata do mundo”, escreveu Graciliano Ramos, na dedicatória do livro São Bernardo: “A João Condé, homem que negocia escritos e um dos grandes talentos de Caruaru.”

De acordo com a jornalista Roberta Sampaio, os quatro filhos não têm ainda uma noção completa do legado deixado pelo pai. “Maria Alice confessa que só veio conhecer ‘um pouco’ dos Arquivos Implacáveis há três anos, quando recebeu um pedido da Rede Globo para uma reportagem. Dois dias antes da gravação, ela e a irmã Maria Thereza fizeram uma vistoria no acervo.”

“Abrimos os arquivos e foi muito emocionante, porque, logo nos primeiros papéis, havia uma anotação que dizia: ‘Eu tenho muito para contar’; diz Maria Alice. Histórias não faltam, a começar pelas artimanhas usadas pelo próprio Condé para ampliar o seu acervo. Em entrevista ao Cruzeiro, na ocasião do lançamento da sua seção literária, ele apenas confirmou o que já era sabido no meio dos escritores: ‘Ah, você não imagina como é árduo e arriscado o mister de colecionador! E preciso muita habilidade, muito jeito, muita política e, às vezes, a disposição para infligir até o Código Penal. Bem sabe que há uma tradição segundo a qual um autêntico colecionador não deve hesitar diante do roubo.”

Roberta Sampaio escreveu que “Condé citou episódios em que foi obrigado a recorrer ao hirto. Contou que, durante uma visita a Manuel Bandeira, aproveitou o momento em que o poeta foi atender ao telefone para desfalcar várias fotografias de uma caixa que examinavam juntos. ‘Descoberto o hirto, era tarde, as peças já estavam todas catalogadas nos arquivos’, disse ele, revelando ‘crimes’ semelhantes em residências de outros escritores amigos seus, como Oswald de Andrade."

“Note-se, porém, que sou um criminoso confesso: confessei os meus hirtos às próprias vítimas, que não só os revelaram, como ficaram até comovidas por ver até onde levava o seu amor à literatura.”, escreveu João Condé.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 08.09.2001
Sábado