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Pioneirismo na medicina

Continua repercutindo a notícia do falecimento do médico sul-africano Christiaan Barnard, que fez o primeiro transplante de coração em ser humano, em 1967. Um grande marco na história da medicina e um feito logo seguido no mundo inteiro, e hoje corriqueiro (mais de 40 mil pessoas já se submeteram a esse tipo de intervenção cirúrgica). Em 1971, foi também ele que realizou o primeiro transplante de coração e pulmão ao mesmo tempo. No Brasil, o primeiro transplante de coração foi feito pouco depois, em maio de 1968, pelo médico Euryclides de Jesus Zerbini. Quase 34 anos depois, com um desenvolvimento sempre maior no campo da saúde, a façanha de Barnard ainda é admirada, quando o assunto do momento é a clonagem de seres humanos. Anunciada para breve, a clonagem do homam desperta reflexões, e objeções, de caráter ético, religioso e mesmo puramente científico. Barnard morreu na Ilha de Chipre, no Mar Mediterrâneo.

Seu feito não é solitário. Centenas de cientistas havia muito pesquisavam e realizavam experimentos nesse sentido. Aqui no Brasil, Zerbini, Adib Jatene e outros médicos de vanguarda não se surpreenderam com o transplante do médico sul-africano. Mas ele tem o mérito de ter sido o primeiro a chegar lá. Foi no dia 3 de dezembro de 1967, no Hospital Groote Schuur, na Cidade do Cabo, que Barnard transplantou o coração de uma jovem que morrera em acidente de carro para um comerciante de 53 anos, que sobreviveu por 18 dias. Apesar de alguns insucessos, ele e os que vieram depois abriram caminho para que milhares de pacientes cardíacos desenganados ganhassem um coração novo, recuperando a alegria de viver. Aperfeiçoaram-se os métodos de desobstrução de artérias, de pontes para desafogar o miocárdio etc.

O ex-presidente da África do Sul e herói da luta anti-apartheid, Nelson Mandela, ressaltou um dado que ilustra ainda mais a biografia do doutor Barnard: ele nunca teve medo de se posicionar contra o preconceito e a segregação racial imposta aos negros pelo colonizador europeu. “Ele também fez muito ao expressar sua opinião sobre o apartheid”, disse Mandela. O cientista morreu aos 78 anos. Desde 1987 deixara de operar, por sofrer de artrite reumatóide. Ironicamente, a causa de sua morte foi ataque cardíaco. No ano em que Barnard fez a famosa operação a África do Sul estava em plena vigência da legislação de segregação, engendrada pelos líderes dos descendentes de ingleses e holandeses que se estabeleceram no extremo sul do continente africano.

Embora a população de negros no país seja muito maior que a de brancos, essa legislação discriminatória impedia o progresso dos antigos donos da terra e as relações entre os dois lados. Havia bairros destinados a uns e outros, escolas, hospitais, transportes, tudo separado. Além da humilhação étnica, os negros ficavam impedidos de evoluir social e economicamente. Confinados em seus guetos, com grande índice de desemprego, os habitantes mais antigos da região não tinham perspectivas e viviam em situação aviltante. Depois, a situação foi evoluindo e hoje aquela legislação é coisa do passado. Barnard foi um pioneiro entre os brancos que se opunham à segregação racial em seu país.

O exemplo de Barnard nos lembra como é importante fomentar a pesquisa. A cardiologia do Brasil ocupa um dos primeiros lugares no mundo, mas em outros campos ainda precisamos avançar muito. Zerbini, criador do Instituto do Coração (SP), que quase chegou primeiro ao transplante em que o sul-africano foi pioneiro, e Adib Jatene, são dois orgulhos brasileiros. Jatene criou uma nova forma de realizar a operação de correção dos vasos do coração de bebês, reduzindo drasticamente a morte de pacientes com o mal conhecido como do ‘bebê roxo’; e inventou o remendo do coração com pericárdio bovino; além de introduzir no País dezenas de novas técnicas cirúrgicas.


Jornal do Commercio
Recife - 08.09.2001
Sábado