O mal, no entanto, deve ser constatado por exames. Uma pessoa com índice de massa corporal (ICM) inferior a 17,5 é considerada anoréxica
O endocrinologista Amélio Godoy diz que os pais geralmente levam suas filhas de 13 a 15 anos ao seu consultório em busca de tratamento para a ausência súbita de menstruação. Os exames, então, revelam que o distúrbio hormonal decorre de deficiência nutricional, geralmente provocada, segundo ele, por excesso de ginástica e alimentação deficiente em carboidratos, reduzida a grelhados e saladas.
“São casos de amenorréia hipotalâmica. Por desnutrição, o hipotálamo, que controla no cérebro o metabolismo, deixa de produzir os hormônios FSH e LH, estimuladores dos ovários. Os níveis de estrogênios baixam tanto que não há menstruação. Esse distúrbio se normaliza rapidamente com a realimentação”, diz o especialista.
Godoy explica que a falta de menstruação não é suficiente para um diagnóstico de anorexia, mas trata-se de um primeiro alerta aos pais de que esse quadro pode se agravar. “A anorexia é uma doença de difícil tratamento. Essas meninas têm mania de dietas e de ginástica, mas se acham saudáveis porque só comem saladas e baniram os carboidratos com medo de engordar. Ficam subnutridas e podem chegar à anorexia.”
AUTO-ESTIMA – O psiquiatra José Carlos Appolinário explica que a anorexia se caracteriza por quatro sintomas básicos: falta de fome, medo patológico de engordar, distúrbio da imagem externa (meninas esqueléticas se acham gordas) e ausência de três ciclos menstruais. “Há causas genéticas, de famílias inteiras anoréxicas e de gêmeos univitelinos; e há causas psicológicas, desencadeadas geralmente por uma baixa auto-estima. A pessoa não gosta de si mesma e transfere para o corpo o desgosto com uma imagem interna, achando-se gorda, quando na verdade está esquelética”, diz.
Segundo Appolinário, na classificação psiquiátrica americana uma pessoa com índice de massa corporal (ICM) inferior a 17,5 é considerada anoréxica. O ICM é calculado com a divisão do peso em quilos pelo quadrado da altura em metros. O médico comenta, porém, que nem todo magro sofre de anorexia. “Uma pessoa pode ser magra por uma infecção intestinal, uma depressão, uma doença qualquer. Para ser anoréxica, ela deve ter também um medo patológico de engordar e uma insatisfação com o próprio corpo”, diz. O médico diz que a realidade brasileira da doença deveria motivar o Governo a lançar campanhas educativas, a exemplo das que são feitas nos Estados Unidos por associações de pacientes de anorexia e de pais de anoréxicos. “Eles fazem campanhas educativas em escolas e em comunidades, com informações sobre a doença e orientações para enfrentá-las no início de seus sintomas.”
Os casos de grandes estrelas com transtornos alimentares — entre elas, a cantora Karen Carpenter, a princesa Diana e a modelo Kate Moss — despertaram, segundo o psiquiatra, as autoridades para a gravidade do problema. Ele diz que a anorexia vai levando silenciosamente o paciente para a falência física, com alterações dos níveis hidroeletrolíticos, anemia grave e alterações cardiovasculares, até a morte. Foi o caso da cantora Karen Carpenter, vocalista do grupo The Carpenters. Depois de brigas públicas com um de seus irmãos, Richard, que tentava livrá-la da doença, Karen chegou a melhorar e a ganhar peso, mas morreu durante o tratamento, em 1983. Appolinário sugere que os pais, aos verem suas filhas magras demais, passando mais de uma hora por dia na academia de ginástica, fazendo dietas rigorosas e se sentindo gordas, procurem um especialista antes que elas adoeçam. “A anorexia é uma doença muito grave, que mata, mesmo quando a paciente está sob tratamento num hospital. A melhor maneira de prevenir é reorientar as meninas quando elas começam a apresentar esses sintomas: mania de magreza, de dieta e de ginástica”, diz.
Muitas vezes, os pais são os estimuladores da doença. É o caso da estudante Sonia Rodrigues, 17, que, gorducha, entrou para o grupo Vigilantes do Peso obrigada pela mãe e, no decorrer da dieta, desenvolveu anorexia, que trata hoje com psicanálise. “Descobri que eu compensava na comida a carência de amor que nunca tive de minha mãe. Os biscoitos eram tudo para mim. De repente, ela passou a me chamar de baleia e a me proibir de comer. Ou seja, além de não me dar amor algum, proibia a satisfação que eu tinha na vida. Só me restava morrer de inanição. Mas a psicanálise está me ajudando mais que uma orientação nutricional. Estou aprendendo com a terapia que, se eu não tenho o amor de minha mãe, posso ter o amor de outra pessoa. Não preciso, não quero e nem devo me encher de biscoitos, nem tentar me matar”, confessa.