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CULTURA
Sem censura na leitura infantil

SILA MONTEIRO
No.com

Clara sofre na pele, aos 12 anos, o preconceito por gostar tanto de meninas quanto de meninos. Jack descobre que seu pai é gay e vai morar com outro homem. Namorados, Cristina e Maurício têm muita coisa em comum: ambos são espancados pelos pais. Mais parecidos com a vida do que com a fantasia, eles são personagens de uma tendência cada vez mais forte na literatura infanto-juvenil: a abordagem sem rodeios de temas que ainda estão longe de serem consenso entre pais e educadores.

“As pessoas acham que falar de homossexualidade é o mesmo que estar incentivando a sua prática. Se for assim, estamos incentivando um jovem a ser assassino só porque a história do livro trata disso. Por que pensam isso quando se trata do homossexualismo?”, diz Anna Cláudia Ramos, que em Sempre por perto (Editora Ao Livro Técnico) conta a história de Clara, que se envolve em paixões proibidas, sente-se rejeitada pelo pai e tem a mãe como confidente de todas as suas experiências com meninos e meninas. “Queria mostrar a relação de pais e filhos e fazer com que eles aceitem suas limitações em vez de reclamarem que os pais não são como gostariam que fossem”, conta .

A idéia de Anna Cláudia era escrever sob o ponto de vista do homossexualismo feminino - porque quase tudo que a sociedade lê, se refere ao masculino - uma história simples. Nada de levantar bandeiras quanto à opção sexual de cada um. A escritora também é professora e oferece cursos e oficinas de leitura para vários educadores. Nesse convívio, lembra que, durante uma palestra, uma professora perguntou se achava certo duas mulheres ou dois homens criarem uma criança. “Eu perguntei: o que é melhor? Duas mulheres criarem uma criança ou essa criança ser estuprada pelo pai e ainda por cima ter uma mãe que se omite com medo do que ele vai falar? Ficou um silêncio danado na platéia”, conta Anna.

A revolução das histórias infantis acontece não é de hoje. Rosa Amanda Strauss, autora premiada e editora do site Doce de Letra, lembra que Monteiro Lobato já levava questões de política e comportamento para o seu Sítio do Pica-Pau Amarelo. “Naquela época, a literatura infantil era baseada em historinhas que ensinam às crianças a serem comportadas e a se adaptarem às regras sociais e morais”, explica Rosa, destacando que o importante não é o tema e, sim, a abordagem. “Você pode até falar de temas polêmicos na infância, inclusive sobre abuso sexual, como fez a Lygia Bojunga no livro O Abraço. Mas devemos saber que o leitor ainda é uma criança ou um adolescente.”

Membro do conselho diretor da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil, a crítica literária e escritora Laura Sandroni concorda que é válido tratar de qualquer tema, inclusive o homossexualismo, mas é preciso tomar cuidado com a linguagem usada. “Um bom livro infantil deve divertir e ser bem escrito. Já li livros que não tratam o assunto de forma poética. Não gostei”, opina ela.

A idéia também não agrada à psicanalista Lia Carvalho, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Ainda que admitindo que a opção sexual de um adolescente independa de leituras ou influências de pai e mãe, ela não recomendaria livros que seguem essa tendência: “É uma forçação de barra para o adolescente e para a criança, porque o conteúdo não é cuidadoso. Não compraria um livro desses, não pelo preconceito mas, sim, pela falta de sensibilidade de como o assunto é tratado.”

“Os pais estão tentando tapar o sol com a peneira”, ataca o escritor e tradutor Leo Cunha, que assina a versão em português de Jack, romance infanto-juvenil em que a americana A. M. Homes mostra um adolescente que tenta conviver com a homossexualidade do pai. “É importante tratar de temas como morte, religião ou inveja, desde que não se faça disso uma lição de moral”, diz o autor de Pela estrada afora, que tem a morte como tema principal.

Em O goleiro e a fada de batom, de Luiz Antônio Aguiar (Atual Editora), Cristina e Maurício são vítimas de maus-tratos. O livro aborda de modo ficcional a violência familiar - que atinge um número assustador de crianças e adolescentes -, mas também dá informações sobre o que deve ser feito. Luiz não nega que o tema seja espinhoso mas acha que a sociedade e a cultura são extremamente repressoras e domesticadoras com a criança e o jovem. “A grande maioria ainda acredita que pancada ensina: então, a Febem deveria ser uma fábrica de gênios, Prêmio Nobel de produção em série, certo?”

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Jornal do Commercio
Recife - 02.09.2001
Domingo