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COMPORTAMENTO
Diários funcionam como terapia

VIRGINIA HONSE
Agência Globo

As páginas em branco dos diários voltam à cena em plena era digital. A gordinha-sexy-entediada Bridget Jones que o diga. Depois de conseguir se livrar de um canalha e do pijama e encontrar a cara-metade, ela inspira a questão: o exercício de autoconhecimento talhado palavra por palavra no diário ajuda seus autores a crescerem na vida?

Na opinião de quem ainda hoje cultiva o hábito, registrar o dia-a-dia em agendas, bloquinhos ou computadores pode ser um atalho para a reflexão que leve à melhor organização em vários campos da vida. Inclusive o afetivo.

Para quem acha que a conversa é de moça, outro filme, A Inglesa e o Duque, do diretor Eric Rohmer, promete pôr o diário longe do tricô. Nele, a história do terror pós-Revolução Francesa é contada através do diário de uma aristocrata inglesa e já causa polêmica bem antes da exibição, no Festival de Veneza.

CONSELHO DE PAI – Maria Mariana, a musa dos diários de adolescentes, na segunda gravidez, aos 28 anos, diz que não recorre mais ao velho amigo, como antes. “Foi meu pai quem me recomendou passar a escrever um diário. E como forma de autoconhecimento. Comecei com 13, 14 anos, e era interessante registrar os fatos, os problemas e, tempos depois, voltar às páginas e ver que as coisas evoluíam. Depois que passei a meditar, parei de escrever, pois senti que a meditação preencheu a necessidade que eu tinha de entrar em contato comigo suprida através do diário”, diz Maria Mariana, que hoje escreve sobre a filha, Clara, de 1 ano e meio, mas no computador e de forma mais livre e menos diária.

Cristiane Zveiter, 32, assume identificações com Bridget Jones. Apesar do look diet, sente-se a própria quando observa que ganhou uns gramas a mais. “Adoro as histórias do livro, que ganhei de aniversário da minha irmã. Principalmente aquelas sobre os quilos que ela percebe ter ganhado de um dia para o outro.”

Mas o alvo dos registros, hoje, é o filho Bernardo, 3. Desde que ele nasceu, Cristiane registra cada passo do crescimento do menino num fichário que ela usava em sua loja.

“Quando Bernardo nasceu, a agenda da loja virou o meu diário. Conto como foi o parto, como ele começou a andar e, agora, todas as gracinhas na escola. Diariamente e com fotos. Na adolescência, eu usava as agendas para os registros e igualmente com fotos e adesivos. Minha mãe costumava ler, para saber das coisas, mas sempre houve muito respeito entre nós.”

O DIÁRIO DE NÉLIDA – A imortal Nélida Piñon vai além do mero registro de fatos em suas anotações, que povoam blocos e mais blocos. “O meu diário não me tem o tempo todo como referência. É como se eu usasse a voz camuflada de uma escritora que, naturalmente, vai registrando o que a sua sensibilidade, cultural e existencialmente, vai ditando. Gosto de denunciar os impulsos da minha imaginação naquele determinado momento”, diz.

A escritora, que não leu e nem viu O Diário de Bridget Jones, acredita, porém, que escrever diários é também uma forma de se analisar. “Diários são verdadeiros exercícios de análise e de reflexão. Adoro pensar. Para mim, é um dos atos mais eróticos na vida de uma pessoa.”

Menos dissertativa, a designer de jóias Patricia Goodman, 35, anda transferindo para a vida profissional o hábito dos registros. E, arrojada, passou a usar o palm top no lugar de blocos e agendas.

“Quando eu era adolescente, escrevia o que ia acontecendo nas agendas da escola. Depois, com a falta de tempo, passei para os tópicos. Mas tudo sempre foi feito de um modo bem prático e objetivo. Nada muito extenso”, acrescenta a designer.

Ela usa o computador também para traçar desenhos ligeiros de idéias que vêm à cabeça repentinamente. “Eu me identifico em parte com Bridget Jones, porque me casei aos 30 anos e tive um pouco daquela vida de mulher solteira querendo se casar, se achando só. Mas, que eu saiba, jamais alguém pegou o meu diário e flagrou o que não devia. Graças a Deus isso nunca aconteceu. E, se aconteceu, ninguém me avisou até hoje.”

A veterinária Isabella Junqueira, 36, lembra que teve diário dos 13 aos 18 anos. “Eram agendas ou cadernos personalizados. Um dos primeiros que tive era todo cor-de-rosa, encapado com pano, repleto de coraçõezinhos vermelhos que recortei em veludo. Dentro, colava todo tipo de bobagens: fotos, desenhos, pensamentos, palavras retiradas de revistas, papéis de bala (devoradas durante o cinema com aquela paixão platônica). Também escrevia o que vinha à cabeça: comecei falando de amor, mas depois descobri que aquelas folhas eram ótimas para xingar o mundo, falar mal da mãe, da melhor amiga, da cólica, do mau-humor.”

Até hoje ela escreve em caderninhos, sobre momentos especiais. Viagens de férias, por exemplo, são perfeitas como tema. Recentemente, ela esteve na Europa e escreveu um pequeno diário sobre a experiência.

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Jornal do Commercio
Recife - 02.09.2001
Domingo