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ARTIGO

Lêda Alves, setenta

por JOSÉ MÁRIO RODRIGUES

Uma igreja discreta, sem exagero de santos nem de velas nem de flores e, por isso mesmo, convidativa para o recolhimento. Diferente das igrejas barrocas, que estão mais para museus sacros. O excesso de ouro, tenho a impressão, atrapalha a concentração religiosa. É brilho demais para uma realidade tão cruel como a nossa.

A igreja de São José foi o cenário perfeito que Lêda Alves escolheu para comemorar os seus setenta anos, no domingo 17 de junho. No mesmo Bairro de São José onde ela passou a infância e adolescência com seus pais e irmãos e que será sempre uma referência de sua paisagem urbana.

Dom Marcelo Carvalheira, bispo de João Pessoa e o padre José Augusto, celebrantes da missa, levaram todos a cantar, a rezar e a lembrar Dom Hélder Câmara, o Dom da Esperança. Muitos amigos da aniversariante se fizeram presentes. Amigos de todos os credos e outros incrédulos, como eu e Magnólia Cavalcanti, mas fiéis à amizade de Lêda.

Hermilo Borba, como não poderia deixar de ser, foi muito lembrado. Mais do que viúva, Lêda é defensora intransigente da obra de Hermilo e, lutando por sua republicação, sai por aí, como caixeiro viajante, lançando os seus livros e mostrando a importância do autor para o Teatro e para a Literatura brasileira.

À exceção de Gilberto Freyre, que possui uma Fundação para cuidar de sua obra, contam-se nos dedos as famílias de escritores que estão preocupadas com a reedição da obra dos seus familiares ilustres. Por outro lado, os editores estão pouco interessados em reedição de autores que já morreram, salvo alguns nomes famosos, que escreveram livros que se transformaram em best-seller. E, assim, os talentos literários vão sendo esquecidos. Saem das livrarias para as bibliotecas. Lêda é uma das exceções: sabe cuidar da obra de Hermilo. E esse é um dos seus trabalhos preferidos.

Além de estudiosa da Arte Popular do Nordeste, ela possui expressiva militância política e está sempre à frente de projetos que beneficiem o povo, os artistas populares e as comunidades pobres. Entra de corpo e alma em tudo o que assume. Sua doação é tanta que o percurso, às vezes, fica difícil para os que estão próximos dela. Sua garra e energia causam inveja às pessoas mais jovens.

Depois dos cinqüenta, essas idades redondas vão deixando a gente de orelha em pé. As missas de sétimo dia ficam mais freqüentes, assim como os velórios e as visitas a hospitais. Que a hora extrema demore muito a acontecer em nossas vidas e na vida de Lêda Alves. Enquanto isso, é bom imitar essa mulher de personalidade forte e fazer, também, um “Inventário de Vida”, titulo que ela deu às suas reminiscências lidas na missa dos seus setenta anos.

No início do ato religioso, Dom Marcelo não perdeu a oportunidade e fez referência ao julgamento da líder camponesa paraibana Margarida Maria Alves, assassinada há vinte anos. Eu me lembrei do poema que escrevi para ela após a tragédia: “Lá se foi Margarida Maria Alves/pelas veredas dos canaviais/na dança desnorteada dos ventos/. A morte é limpa e afirmativa e sua vida teve sentido./Lamento os que ficam sem sentido algum/e inúteis, covardes e impassíveis/esperam apodrecer em seus domínios.”

José Mário Rodrigues é escritor e poeta


Jornal do Commercio
Recife - 09.07.2001
Segunda-feira