Na Física, experiências feitas em condições extremas são sempre ricas em informação. Quando se consegue juntar mais de uma dessas condições, os resultados tendem a ser ainda melhores. Isso é o que acontece no National High Magnetic Field Laboratory (http://www.nhmfl.gov), nos Estados Unidos, onde se tem os campos magnéticos mais intensos do mundo, aliados a muito baixas temperaturas. O laboratório, em Los Alamos, no Estado do Novo México, possui outra peculiaridade que atrai cientistas: disponibiliza suas instalações para pesquisadores do mundo inteiro. E o que é melhor: o usuário não paga nada. Para se candidatar, o pesquisador apresenta uma proposta, que é avaliada pela sua importância científica. Quem faz a análise é um pernambucano radicado há 11 anos nos EUA: Alex Hugo Lacerda, que graduou-se e concluiu mestrado no Departamento de Física da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e obteve o doutorado em Grenoble, na França. Na seguinte entrevista, concedida por e-mail à repórter Verônica Falcão, ele fala sobre as facilidades do instituto, que tem uma das maiores e mais caras estruturas do planeta.
JORNAL DO COMMERCIO – Qual o interesse americano em proporcionar tais facilidades para estrangeiros gratuitamente? Qual a contrapartida?
ALEX LACERDA – Avanços em ciência básica se fazem de uma maneira aberta e sem fronteiras. A pesquisa básica é, e continua sendo, a ‘mãe’ de todas as descobertas. Uma vez que um pesquisador submete um proposta para utilizar nossas facilidades, a única coisa que levamos em conta é a qualidade da proposta. A contrapartida, sem querer parecer que somos ‘bons meninos’, não existe.
JC – Os técnicos do instituto devem ter acesso aos resultados. Teriam os americanos interesse em informações científicas privilegiadas, já que o estudo em campos magnéticos altos é uma área bastante promissora da Física?
LACERDA – O National High Magnetic Field Laboratory (NHMFL) não tem nenhum privilégio com os dados obtidos. Os proprietários dos resultados são os pesquisadores que propõem o experimento. O NHMFL apenas facilita as experiências aos usuários.
JC – O que está se estudando de mais importante no laboratório no momento?
LACERDA – Nosso impacto em ciência é muito grande e fica difícil dar uma resposta precisa. O NHMF é dividido em três partes, duas na Flórida e uma aqui em Los Alamos. Os usuários e cientistas locais investigam desde o comportamento de DNA a materiais magnéticos. Também temos um forte componente na Flórida dedicado ao estudo in-vivo e efeito de campos magnéticos altos.
JC – Vocês são obrigados, durante determinada época do ano, a receber alunos de graduação. Como funciona a seleção? Quais os resultados obtidos?
LACERDA – Na verdade, a palavra ‘obrigados’ talvez não se se aplique neste caso. De fato, parte da nossa missão como um laboratório federal é participar intensamente na educação de estudantes e jovens pesquisadores. Nesse contexto, temos bolsas para atrair estudantes, desde os que ainda não entraram na universidade aos alunos de doutorado em diversas áreas da ciência e tecnologia. Nosso programa de verão atrai em torno de 70 estudantes. Eles são incorporados em pesquisas que estão sendo realizadas por um dos nossos grupos e têm a oportunidade de aprender tecnologia de ponta em diversas áreas de ciência, da Biologia à Química e Física. Durante o decorrer do ano, também incentivamos e atraímos estudantes de grupos não muito representativos, como afro-americanos e mulheres.
JC – Qual a representação brasileira nas pesquisas no NHMFL?
LACERDA – Do posto de vista de usuários, 65% são de universidades americanas, 20% da Europa e Ásia e o resto da indústria e de outros laboratórios nacionais. De Pernambuco tivemos dois. Anualmente recebemos pesquisadores do Instituto de Física da USP e a da Universidade de Campinas. Contudo, a cada oportunidade que visito o Brasil procuro intensamente atrair pesquisadores e estudantes para passar um estágio aqui nas nossas instalações.
JC – Tem algum resultado que o senhor considere de interesse para o público?
LACERDA – Temos vários resultados que considero de importância não só para a comunidade científica. Um deles é em relação a transportes a grande velocidades (linhas de trem) que podem ser configurados de uma maneira a se utilizar campos magnéticos para eliminar problemas de fricção e se locomover bem rápidos. Mantemos intensa colaboração com o Japão nessa área. Temos também projetos em que utilizamos campos magnéticos altos para estudarmos efeitos de gravidade zero em crescimento de plantas e em outros organismos vivos.
JC – E o senhor, pesquisa o quê?
LACERDA – Desde que fiz meu doutorado em Grenoble, na França, me interesso em propriedades de metais quando a muito baixas temperaturas e submetidos a condições extremas de pressão e campos magnéticos altos. Continuo a seguir esta linha de pesquisa e hoje procuro a entender (de um ponto de vista muito simplificado) o porquê de estes materiais poderem, por exemplo, conduzir eletricidade sem muita dissipação.