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MEMÓRIA / DÍLSON MARQUES
Um pioneiro na conquista do passe

por LENIVALDO ARAGÃO
Editor de Esportes

Estádio da Ilha do Retiro, 10 de junho de 1965. A seleção pernambucana escrevia uma página épica para a história do futebol do Estado, ao derrotar a equipe da então Alemanha Ocidental, comandada pelo lendário Helmut Schoen, por 1x0, gol assinalado pelo maranhense Gojoba, que defendia o Sport. A equipe da casa, dirigida por Antoninho, técnico do Náutico, formava com Dudinha; Gena, Alemão, Baixa e Jório (Toinho); Gojoba e Ivan; Nado, Bita, Nino (Pelezinho) e Lala.

Entre os reservas, um jóvem de 21 anos (22-6-44), que vinha se destacando como meia-armador. Era Dílson, o hoje médico Dílson Lins Marques dos Santos. Não teve a oportunidade de jogar, mas só o fato de figurar ao lado dos jogadores que formavam a primeira linha já o deixava radiante.

Recifense de Água Fria, Dílson brilhara no juvenil do Santa Cruz que tornara hexacampeão estadual da categoria – 59/64 –, tendo começado a ter chance no time principal em 62. Era apontado como um jogador de grande futuro, mas passou a ser olhado de través, depois que assumiu a secretaria do sindicato dos jogadores. Em 66, numa ação na Justiça Trabalhista em que reclamava salários atrasados, conseguia o passe livre, antecipando-se em três décadas a jogadores, como Juninho Pernambucano, Sangaletti, etc.

Com o passe na mão, foi contratado pelo Sport, passando a ser o jogador mais caro da equipe formada por Mundinho (pai de Júnior Baiano); Djalma, Onça, Baixa e Hélmiton; Jarbas e Dílson; Neves, Renato, Paulo Choco e Canhoto. Já universitário, era tido como uma espécie de jogador independente, que defendia seus direitos, a exemplo, em termos nacionais, de Afonsinho, do Vasco, futuro médico, como ele.

Logo, em 67, estava treinando no Náutico, mas como a meia-esquerda nos Aflitos se encontrava congestionada por Ivan, Deda e Didica, sentiu que ali não tinha futuro. Chegou a ser cobiçado pelo Central, mão não chegou a acertar.

No mesmo ano passou a defender o América, que ainda aprontava diante dos grandes. Naquele ano mesmo, Dílson foi eleito o melhor jogador do torneio-início. Tratava-se de uma festa com que se abria o Campeonato Pernambucano, promovida pela ACDP – Associação dos Cronistas Desportivos de Pernambuco. Numa só tarde o torcedor via todas as equipes que disputariam o Estadual, em partidas-relâmpago.

Dílson ficou no América até 69, quando, aos 25 anos, e já segundanista de medicina, descalçou as chuteiras. Logo via-se novamente na Ilha do Retiro, agora prestando seus serviços no departamento médico e acompanhando de perto o florescimento de jogadores como Roberto Coração de Leão, o célebre Biro-Biro e o zagueiro Lula, o hoje treinador campeão mineiro pelo América, Lula Pereira.

Em 75, já como médico, formava numa comissão técnica que tinha à sua frente uma raposa do futebol, o velho Duque. “Até bolas a gente furava”, recorda Dílson, que por causa da catimba que era induzido a fazer, foi várias vezes expulso do banco. A recompensa viria com o Sport conquistando o título de campeão, depois de um jejum que já ia entrar para o 13º ano.

Dílson ainda participaria da campanha de 1977, quando o Sport outra vez sagrou-se campeão, agora dirigido pelo gaúcho Ênio Andrade. No ano seguinte levava o Sport à Justiça por problemas salariais.

Quando menos esperava estava indo trabalhar no futebol árabe, cuja federação andava à procura de um médico brasileiro que entendesse de futebol e tivesse pós-graduação em medicina esportiva. Foi a sopa no mel, e encaminhado pelo empresário de futebol Elias Zacour, Dílson tornou-se o primeiro médico saído do Brasil para trabalhar na Arábia. Passou a fazer parte de uma comissão técnica que tinha Evaristo de Macedo, recém-saído do Santa Cruz, Sebastião Araújo, Luiz Henrique e Carlos César. Era a época dos petrodólares.

“Evaristo foi quem me deu as dicas. Peguei em dinheiro com que nunca tinha sonhado, além de carro, apartamento para morar, passagens de ida e volta para minha mulher, meus três filhos e a empregada.”

O país era o Katar, e a comissão técnica era encarregada de preparar três seleções: até 18 anos, até 21 e acima de 21.

Apesar da fartura, Dílson terminou voltando para o Brasil, antes de completar-se o prazo de três anos que acertara com os árabes.

Casado com a delegada de polícia Anete, Dílson tinha uma filha – Cláudia Fabiana – casada com o ex-goleiro Maury, do Náutico. É aposentado do Inamps, tendo trabalhado na Polícia Civil, como médico legista, Detran e Academia de Polícia, sendo hoje médico da Unimed, trabalhando regularmente no Recife e Olinda.

Caminha religiosamente oito quilômetros por dia, mas, safenado, desde dezembro de 99, está proibido de tomar parte nas peladas que tanto amava.

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Jornal do Commercio
Recife - 09.07.2001
Segunda-feira