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ACUPULTURA
Agulhas que curam

Criada na China há cinco mil anos, a acupuntura é reconhecida no Ocidente como eficaz no tratamento de males diversos, que vão de doenças respiratórias a neurológicas e psiquiátricas

por LUIZA BARROS

Há três anos, a aposentada Nadya Sundfled, hoje com 55 anos, podia ser considerada uma ‘doente generalizada’. Sofria com dores na coluna, gastrite, esofagite e até mesmo síndrome do pânico. Já havia peregrinado em consultórios médicos de diferentes especialidades e tomado medicamentos com variados princípios ativos quando, finalmente, encontrou a solução para seus males: a acupuntura. “Na primeira aplicação, já percebi uma melhora nas dores da coluna e no estômago”, testemunha.

Criada na China há cerca de cinco mil anos, a acupuntura acredita que em todos os seres circulam forças de polaridades opostas: ativas (yang) e passivas (yin). “Todos os órgãos têm energias yin e yang. No estômago, por exemplo, o yin é o suco gástrico e o yang são os movimentos peristálticos. O yin nutre e o yang protege”, explica o médico acupunturista Gustavo Sá Carneiro.

De acordo com ele, o equilíbrio entre o yin e o yang é que garante a saúde e o bem-estar. “As doenças resultam de algum desequilíbrio. A acupuntura é um tipo de medicina que serve justamente para desbloquear e equilibrar as energias e as funções do corpo”, expõe.

“Trata-se de um método terapêutico que faz a inserção temporária de agulhas na pele, despertando estímulos nervosos periféricos que desencadeiam, por meio do sistema nervoso central, reações neuroquímicas. Essas reações aumentam a capacidade de auto-regeneração, regulam as funções internas e exercem efeitos analgésico e antiinflamatório”, informa Dirceu De Lavôr Sales, diretor de ensino da Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura e presidente da Sociedade Médica de Acupuntura de Pernambuco.

Uma análise geral do paciente é necessária para diagnosticar o tipo de desequilíbrio e suas razões. Para isso, a língua, o pulso e a pele são examinados, além de ser feita a auscutação e a análise da fisionomia. “O tipo de nariz, a maneira de andar e até o piscar de olhos da pessoa dizem bastante sobre sua doença”, esclarece Sá Carneiro. “É fundamental que o tratamento seja precedido por um diagnóstico da medicina ocidental, depois complementado por um diagnóstico segundo os critérios da medicina tradicional chinesa. Assim, pode-se instituir um sistema terapêutico realmente eficaz, que garanta a segurança do paciente”, defende Sales.

Descobre-se, por essas vias, as reais causas da patologia e todo o seu possível desenvolvimento. “É um trabalho de detetive. É preciso ir atrás das pistas, ou seja, da origem da doença e também descobrir como aquilo vai terminar. Acupuntura é feita do ‘antes e depois’ e não do ‘aqui e agora’ como acontece na medicina alopata. Assim, além da cura, é feita a prevenção”, esclarece Sá Carneiro.

ANALGESIA – Uma das principais indicações da ‘ciência das agulhas’ é tratar e amenizar dores, graças a seu eficiente poder analgésico. Um estudo realizado em 1998 pelo médico acupunturista Raul Cavalcanti, com 60 pacientes dos hospitais Oswaldo Cruz e Barão de Lucena, verificou a eficácia do método no tratamento da dor no pós-operatório imediato. “Os pontos de acupuntura liberam endorfina e encefalina, além de corticóide. Ao serem estimulados, exercem ao mesmo tempo efeito analgésico e antiinflamatório. A acupuntura diminui bastante a intensidade dolorosa”, explica o médico, que apresentou o trabalho no Congresso Mundial de Acupuntura, no mesmo ano.

Além de amenizar os efeitos do pós-operatório, a acupuntura pode ser usada como anestesia propriamente dita. “Indica-se como forma de analgesia em pacientes velhos, pessoas com problemas de pressão e alérgicos a medicamentos analgésicos” informa Sá Carneiro, responsável pela primeira analgesia com acupuntura para cirurgia abdominal na América Latina, em 1978, no antigo Hospital Pedro II. “A acupuntura associada à anestesia convencional ajuda a diminuir a quantidade de drogas necessárias e tira os efeitos colaterais da anestesia”, avalia Ana Paiva, anestesista e acupunturista.

SEM AGULHAS – A medicina tradicional chinesa, cujo principal ramo é a acupuntura, também inclui outras práticas, como o do-in e a moxabustão, que são a massagem e a passagem de calor, respectivamente, em pontos de acupuntura.

Outra maneira de equilibrar o yin e o yang do corpo é a estimulação de pontos no pavilhão da orelha pelo massageamento com sementes de mostarda (a auriculoterapia). “O paciente comprime as sementes nos pontos de acupuntura no pavilhão auricular algumas vezes por dia, fazendo a estimulação”, explica Raul Cavalcanti, autor do livro A auricoloterapia: uma visão ocidental e uma visão oriental. O método é bastante indicado para a eliminação de vícios, em especial, o tabagismo.

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Jornal do Commercio
Recife - 08.07.2001
Domingo