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NOVO MEDICAMENTO II Médicos debatem a eficácia do medicamento
Na França, a decisão de liberar a comercialização da pílula da juventude provocou intenso debate. De um lado, o ministro da Saúde, Bernard Kouchner, que liberou; do outro, o pesquisador Etienne-Emile Baulieu, descobridor do hormônio e defensor dos benefícios que ele proporciona aos pacientes que tenham acompanhamento médico.
No meio da polêmica está um estudo financiado em parte pelo próprio Ministério da Saúde da França e realizado por Baulieu. As conclusões preliminares da pesquisa mostram a eficácia do produto em certas faixas de idade. O estudo, com 280 pessoas entre 60 e 80 anos, revelou que o DHEA é moderadamente positivo para mulheres de mais de 70 anos no tocante à densidade dos ossos e à libido, assim como em relação à hidratação da pele e de outros pequenos pontos que contribuem para o rejuvenescimento. Em compensação podem aparecer acne e pêlos acima dos lábios. “A pílula apresentou melhoras em mulheres de mais de 70 anos, reduzindo o risco de osteoporose”, afirma Françoise Forette, que participou da equipe da pesquisa.
Ela comenta as suspeitas de que doses elevadas de hormônios como o DHEA aumentariam o risco de câncer. “Os riscos de câncer podem existir, mas são os mesmos provocados por hormônios estrógenos e andrógenos, normalmente comercializados: câncer de seio e útero em mulheres; e de próstata. Por isso, o produto deve ser tratado e fiscalizado como medicamento, pois é um hormônio”, alerta.
O problema é que o ministro da Saúde francês deixou de fiscalizar a comercialização de DHEA exatamente porque o produto não é “considerado medicamento”. O ministro espera o parecer da Agência de Segurança Sanitária e de Produtos Alimentares, que está estudando o assunto. A agência, contudo, não tem estudos conclusivos.
No Brasil, a comercialização e a importação de DHEA são proibidas pela resolução número 153, de 28 de junho de 2000, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A médica Kássie Cargnin, coordenadora da Câmara Técnica de Endocrinologia do Cremerj, defende a proibição. “Esta pílula, entre outros efeitos, aumenta a massa muscular. E por isto se tornou conhecida nas academias de ginástica como um esteróide anabolizante. Muitos passaram a tomar DHEA de forma abusiva, principalmente o pessoal que pratica musculação”.
Kássie, porém, diz que a pílula pode até ser indicada em certos casos, desde que esta decisão seja tomada por um médico especialista, com base num exame laboratorial. “Admito que um médico receite DHEA a um paciente, se ele apresentar uma deficiência grave deste hormônio”, afirma.
Kássie se diz preocupada com a venda pela Internet e até em farmácias de suplementos nutricionais de pílulas que prometem juventude. “É preciso que a Anvisa seja rigorosa na fiscalização. Comprar DHEA sem receita é um absurdo”.
DEFESA – Há, porém, quem defenda o tratamento regular com DHEA, sobretudo a partir dos 50 anos. O médico Rogério Alvarenga, especialista em nutrologia e membro da Academia de Ciências de Nova Iorque, aprova não só a reposição com DHEA como com outros hormônios, a partir de rigoroso controle médico. Ele diz que essa substância oferece benefícios para o organismo e cita um estudo realizado pela pesquisadora Elizabeth Barret Conner, da Universidade da Califórnia. No estudo, publicado no The New England Journal of Medicine, ela acompanhou 240 homens, de 50 a 79 anos, e constatou que havia uma nítida relação entre baixos níveis de DHEA e maior mortalidade.
“Os pacientes que tomam o DHEA em doses terapêuticas têm uma melhora no vigor e em outras funções orgânicas. No que diz respeito à longevidade, a reposição mantém os níveis de hormônios sexuais, tanto no homem quanto na mulher, retardando os efeitos da andropausa e da menopausa”, diz Alvarenga.
A suplementação de DHEA só deve ser feita depois que a análise do sangue mostrar que isso é necessário. E essa deficiência pode ser observada a partir dos 35 ou dos 40 anos. “Entre 45 e 60 dias de reposição já se percebem melhoras. Se a pessoa interromper o uso, os níveis decrescem naturalmente, voltando aos índices anteriores ao tratamento”, diz o médico. Segundo Alvarenga, o consumo de DHEA não causa risco de vida. E acrescenta que não há relatos de efeitos colaterais quando se usa a substância sob controle.
Já o endocrinologista Ricardo Meirelles alerta que não se justifica o consumo de doses excessivas, uma vez que os efeitos a longo prazo são desconhecidos dos cientistas. “As doses devem ser estabelecidas de acordo com os resultados das dosagens laboratoriais. O objetivo é manter os níveis de DHEA dentro dos limites normais”, diz.
EFEITO – Nem todos os efeitos do uso de DHEA no homem são observados na mulher. Nenhum estudo examinou a tolerância em altas doses na mulher ou o seu nível de segurança, quando aplicado de forma crônica no homem. “Embora os estudos preliminares sejam otimistas quanto ao uso do hormônio, nem todos os trabalhos sustentam essa idéia. Há cientistas que apontam efeitos colaterais, sim. Entre esses efeitos, estão surgimento de acne, problemas no fígado, aumento do apetite, alterações nos níveis de colesterol e aumento da próstata. Nas mulheres, também podem ocorrer crescimento de pêlos, engrossamento da voz e aumento do risco de câncer de mama”, alerta o médico e farmacologista Miguel Lemos Neto.
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