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Sexo@Cidade
Flávia de Gusmão

Certos homens são tão trogloditas que só faltam falar

1 Namorados são inesquecíveis

Ter namorado é tudo na vida. O problema é que nas primeiras três semanas começam a surgir os defeitos irremediáveis. Não que eles sejam diferentes daqueles detectados nas primeiras três horas de encontro cósmico, o detalhe é que, nesse instante mágico, eles são automaticamente perdoados, dependendo da fase de ‘secura’ que se vive. Eles são deletados do seu rol de preocupações imediatas, mesmo que o sensor de segurança esteja soando desenfreado e um barulhento alerta vermelho pisque como louco. O aviso foi dado e empurrado para o canto em nome do “se não tem tu vai tu mesmo”. Vamos falar sério, não é nada fácil ser uma Radical Chic (a personagem criada por Miguel Paiva), 30 e poucos anos, corpinho com tudo em cima e não contar com o maior benefício do namoro estável que é o sexo fixo (o pago não vale). A vida de uma mulher solteira tem encantos indescritíveis, mas sair por aí na legítima tarefa de tirar o atraso e ainda ter que fingir que não é nada disso dá a maior canseira. Isso sem falar que o free-lancer deveria vir feito candidato a cargo em multinacional: com o currículo encadernado debaixo do braço, com, no mínimo, três referências e o número de um help-desk em caso de pane. Armar-se a cada noite de um arsenal de frases tolas e ainda ter que se lembrar delas no café da manhã é de uma crueldade só comparável a ter de agüentá-los falando sem parar sobre si mesmos, na vã esperança de que finalmente se decidam a ir ao banheiro para que você possa dar uma checada no material a ser usado logo mais.

2 Pecados que se deve evitar num primeiro encontro

Falar sobre si mesmo é o hábito mais destestável da facção masculina, ao lado de coçar o corpo todo em público como se fosse um babuíno no zoológico, falar alto no celular e tratar o garçom como se fossem companheiros de longas datas para mostrar que freqüenta o lugar. Mas, cada caso é um caso, embora existam modelos que são sempre repetidos. Terminar a transa e ficar sondando sobre sua própria performance, como se estivesse narrando um tira-teima de jogo de futebol é intolerável; dar uma de machão na frente dos amigos para mostrar quem é quem manda (quando a realidade é bem outra) é insuportável. Não entender que quando a mulher pergunta algo aparentemente óbvio, por trás esconde-se um subtexto que, de tão sinuoso, faria qualquer vilão de Shakespeare corar é simplesmente o fim da picada.

3 Mulheres são maximalistas, os homens, minimalistas

Deixando de lado a cansativa ‘guerra dos sexos’, que, de resto, é do que se ocupa essa coluna, vamos baixar as armas e admitir que mulher se preocupa, sim, com detalhes bobos. Digamos que o homem tem uma visão macro – ele não vê que a perua que acaba de entrar no restaurante está usando sob o vestido fino aquelas meias que dão o truque final do bumbum empinado, eles vêem um tremendo bundão. E assim é em todas as outras coisas. Nenhum homem possui 30 pares de sapatos, no máximo quatro, como é que pessoas assim vão entender o drama que se abate sobre todas nós na hora de vestir? Como discutir com alguém para quem a cor salmão simplesmente não existe? Rosa sim, vermelho sim, laranja também, salmão? Desconhece. E fúcsia, então? É melhor nem perguntar.

4 Pensamentos-mantras da Radical Chic (para recitar antes ao acordar e antes do sol sumir)

“Homens, melhor não tê-los. Mas se não temos, como deixá-los?”

“Pior que um cara rico e completamente idiota, só um cara pobre e completamente idiota”.

“Que me despreze, me maltrate, me agrida, tudo bem. Mas, não falar de mim nem pro analista é demais”.

“O censo concluiu que, para cada 100 mulheres, existem 97 homens. Tirando os gays, os casados, os muito velhos, os muito jovens, os chatos, os feios, os violentos, os idiotas e os que eu já namorei, será que sobra algum?”

“As pesquisas afirmam que o novo homem vem aí. Ele virá alegre, doce, descontraído, compreensivo, jovial, carinhoso, despojado e...atrasado”.

“Certos homens são tão trogloditas que só faltam falar”.

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Jornal do Commercio
Recife - 09.07.2001
Segunda-feira