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ROTEIRO Um doce mar nas Minas Gerais
Cidade histórica que surgiu com o transporte fluvial, Pirapora oferece banhos, passeios de barco e até esportes radicais nas águas do São Francisco. É o ‘mar’ de Minas Gerais
por VERONICA ALMEIDA
Minas tem mar, uai? Tem sim. Mas lá, o chamam de rio, a água é doce e as ondas, mansas. Quem estiver disposto a conferir, as corredeiras do Velho Chico, em Pirapora (a 345 quilômetros de Belo Horizonte), são a parada certa. Mesmo em tempos de seca, é possível se banhar nas águas do São Francisco, passear em barcos, praticar canoagem ou esportes mais radicais, como o rafting (uma espécie de canoagem com obstáculos), e aproveitar outros atrativos em terra firme.
A cidade, que nasceu com o transporte fluvial entre as regiões Sudoeste e Norte do País, transformou-se em ponto turístico e roteiro obrigatório para os amantes da ecologia e do esporte. Se por causa da poluição e da seca, a realidade já não tem a ver com o significado do nome do lugar - Pirapora, na linguagem indígena, é o local onde saltam os peixes –, pelo menos vale conhecer outros aspectos da sua paisagem natural e a cultura do seu povo.
Embora só tenha sido fundada em 1911, a história de Pirapora vem desde os tempos do Brasil Colônia, quando os sertões das Gerais foram desbravados por bandeirantes, que lá chegavam a partir do São Francisco, em busca de ouro e pedras preciosas. O trecho de Pirapora a Juazeiro (Bahia) é o maior navegável do rio. São 1.371 quilômetros.
O registro mais visível dessa história não fica exatamente em Pirapora, mas na vizinha cidade de Várzea de Palma. Com menos de uma hora de carro se chega lá. O endereço é Barra de Guacuí, às margens do Rio das Velhas, afluente do Velho Chico, por onde teria passado o famoso bandeirante Fernão Dias, caçador de esmeraldas. Lá estão as ruínas da Igreja de Pedras Bom Jesus de Matosinho. Em estilo barroco, foi idealizada pelos padres jesuítas na segunda metade do século 17. A construção ficou inacabada por motivos desconhecidos e, nas ruínas, cresceu uma grande árvore, a gameleira.
Em Pirapora, construções de um passado mais recente restituem outras fases da cidade. Uma delas, que merece ser vista bem de perto, é a Ponte Marechal Hermes, de madeira, com estrutura de aço fabricada na Bélgica. Os seus 694 metros ligam o município a Buritizeiro, onde há o Sítio Arqueológico conhecido como Cemitério da Caixa D’Água, território demarcado pelos índios Caipós para o sepultamento de sua gente.
Inaugurada em 1922, a ponte sobre as corredeiras do São Francisco era parte de um projeto do então presidente da República, Epitácio Pessoa, que planejava uma ferrovia ligando cinco estados, de Minas ao Pará. O projeto foi abandonado, mas a ponte teve uso até os anos 60, possibilitando o transporte de querosene e produtos agrícolas da Região. É tombada pelo patrimônio histórico estadual e usada hoje para a travessia de carros, motos, bicicletas e pessoas. O conjunto arquitetônico da antiga estação ferroviária abriga, na atualidade, a Biblioteca Municipal Padre Paulo Vicente de Oliveira e a Secretaria Municipal de Turismo, Esporte e Lazer. Merece ser visto.
O velho Vapor Benjamin Guimarães, símbolo do transporte mais característico de Pirapora (a navegação fluvial) está sendo restaurado no momento. De origem americana e com capacidade para 110 passageiros e tripulantes, foi desativado em 1993, por problemas técnicos. Antes de chegar a Pirapora, onde foi usado por cerca de 80 anos, navegou na Bacia Amazônica. Sua estréia no mundo foi sobre as águas do Mississipi (Estados Unidos), em 1913.
Na ausência do vapor, lanchas e barcos fazem passeios para os interessados na paisagem ribeirinha. Pacotes para 38, 24 e 18 pessoas são organizados. Mas há outras formas de explorar as águas do São Francisco. Canoagem e o rafting são alguns exemplos. Uma boa oportunidade para praticá-los é na Festa do Sol, que acontece de 27 a 29 deste mês na cidade. Aliás, uma série de torneios esportivos e festejos populares estão incluídos no calendário turístico dos piraporenses. Este ano, por conta das comemorações dos 500 anos do rio e da campanha para torná-lo paisagem cultural da humanidade encaminhada à Unesco, a programação é mais ampla.
A BAHIA EM MINAS - A cidade oferece muitos prazeres além dos que giram em torno do rio. Artísticos, como o artesanato, e culinários, como o festival de sabores que reúne as cozinhas mineira e baiana, regada à aguardente tradicional de Minas, uma pinga mais macia que as dos nordestinos. Nos restaurantes e bares de lá, pode-se comer moqueca de peixe e vatapá, com tempero bem mais suave que os de Salvador. Pirapora também é o maior produtor de uvas de mesa de Minas.
Como ocorre em outras regiões do São Francisco, a arte das carrancas lá está presente. Figuras de proa, mistura de homem e animal, funcionam como amuletos para espantar os maus espíritos e, mais recentemente, como peça de decoração para os admiradores. A habilidade das mãos dos piraporenses em esculpir a madeira pode ser comprovada nas imagens de santos, como a gigantesca de São Francisco, exposta na orla fluvial
A cidade de 551 quilômetros e 60 mil habitantes da microrregião econômica do alto-médio São Francisco possui hotéis e pousadas para recepcionar o visitante. Algumas oferecem atividades ecológicas, como cavalgadas, trilhas, entre outras.
Os repórteres viajaram a convite da Federação das Associações Comerciais de Minas Gerais (Federaminas)
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