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HISTÓRIA III
ENTREVISTA/Carlito Lima

Tortura mesmo era a psicológica”

O ex-sargento do Exército e líder comunista Gregório Bezerra era o preso político que mais preocupava a segurança na 2ª Companhia de Guardas, na Avenida Visconde de Suassuna, logo após o movimento militar de 1964. A Companhia foi transformada em cárcere dos principais líderes políticos de esquerda, como de centenas de militantes. Nela, também, foi instalada a Central de Inquéritos Policiais Militares, comandada pelo coronel Hélio Ibiapina. No livro “Confissões de um Capitão”, Carlito Lima revela o comportamento de alguns dos encarcerados. Na entrevista a seguir, o capitão diz que o Golpe de 64 aconteceria de qualquer jeito, mesmo que o general Mourão Filho não o tivesse precipitado. “A classe média queria o Golpe”, destaca.

JORNAL DO COMMERCIO – Pela 2ª Companhia de Guardas passaram Arraes, Paulo Freire, Paulo Cavalcanti, Gregório Bezerra e Pelópidas Silveira. Qual deles recebia maiores cuidados quanto à segurança?

CARLITO LIMA O Exército tinha pavor e ódio a Gregório Bezerra porque, na Intentona Comunista de 1935, ele era um dos dirigentes e era também sargento. Ele chegou todo amarrado. Era um cara bravo. Um dia, numa das celas da 2ª Companhia de Guardas, falou: “tenente, mate-me. O senhor ganhou a revolução. Se fosse ao contrário, mandaria vocês para o paredão”. Era um cela (solitária) pequena, mal podia se locomover. Isso já era uma tortura psicológica. O Julião (Francisco) também preocupava. Assim que chegou, um sargento deu-lhe umas pancadas, e justificou: “Tô batendo porque prometi, a mim mesmo, que o faria pelos dias de prontidão que fiquei no quartel, por sua causa”. A mulher de Julião contou ao Jornal do Brasil, que divulgou e houve a abertura de inquérito, mas o sargento negou. O Paulo Cavalcanti preocupava por sua liderança e organização na carceragem, e Arraes por sua postura e cabeça sempre altivas.

JC – O general Mourão Filho precipitou o Golpe de 64. Se ele não tivesse partido de Minas, teria havido o movimento?

Carlito LimaTeria, sim. Há mais de um ano que se preparava o Golpe. Não seria no dia 31 de março, nem 1º de abril, mas haveria. No IV Exército, quem tramavam eram os coronéis. O general Justino Alves era um falastrão. Quando o marechal Humberto Castelo Branco fez o primeiro pronunciamento (após o episódio dos marinheiros, no Rio de Janeiro), aquilo surtiu como uma senha. Mourão Filho apenas precipitou. A classe média estava com o Golpe.

JC – O senhor diz que somente Castelo Branco unia as correntes militares. Quais eram essas correntes?

Carlito LimaNo Exército existia política entre os generais. Assim, o general Amaury Kruel, comandante do II Exército (São Paulo), era da corrente golpista; o general Justino Alves, do IV Exército, era da legalidade. Castelo Branco tinha uma liderança muito grande na instituição e ascendência sobre as correntes, por isso unia. Mesmo assim, Castelo perdeu a eleição de 1967 para a linha dura de Costa e Silva. Foi aí que a revolução começou a se perder.

JC – O livro diz que os oficiais da 2ª Companhia de Guardas davam tratamento educado aos presos. O senhor não testemunhou torturas no quartel?

Carlito Lima Não tinha torturas, sou testemunha disso. A única tortura era a psicológica, quando um preso era colocado três dias em uma cela (solitária). Isso enfraquecia qualquer pessoa. Agora, havia interrogatórios às 2 ou 3 horas da manhã. A tortura veio a partir de 1968, com o surgimento do Doi-Codi. Aquilo era um poder paralelo ao do Exército, comandado por um pessoal de linha duríssima.

JC – O senhor foi carcereiro de autoridades e personagens famosos, e essas pessoas testemunharam depois o respeito e o tratamento humanitário que o senhor dedicava aos presos. Essa postura atrapalhou a sua carreira militar?

Carlito Lima Alguns diziam piadinhas. Falavam que eu era da linha colorida. Certa vez, em uma visita ao quartel, um coronel cumprimentou a todos os oficiais, menos a mim. Isso, realmente, me chateou bastante. Eu conversava com todo mundo, principalmente o Paulo Cavalcanti, e foi com ele que comecei a me politicar, a enxergar diferente. Vi que a carreira militar não dava mais. Com a formatura em engenharia, preferi outro caminho. Só me arrependo de não ter feito mais pelos presos. Eram uns idealistas.

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Jornal do Commercio
Recife - 09.12.2001
Domingo