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PARTIDOS
Um PT cada vez mais light

Perto de completar 22 anos, o partido flexibiliza o discurso e a política de alianças. O resultado é uma maior penetração na classe média

SÉRGIO MONTENEGRO FILHO

O PT realiza, nos dias 14, 15 e 16, no Recife, seu 12º Encontro Nacional. Entre outros temas, o partido fará, como sempre, um balanço da sua atuação. Às vésperas de completar 22 anos de fundação, o PT de hoje é bem diferente daquele fundado em fevereiro de 1980. Apesar de manter a fama de radical e brigão, há muito o partido vem flexibilizando sua postura diante de vários temas. Um deles, na pauta do congresso desta semana, é a ampliação da política de alianças da legenda.

À época da fundação, acordos eleitorais eram tabu, palavras proibidas aos petistas, que não admitiam a coligação com outros partidos, mesmo os mais próximos da sua linha ideológica. Mas há outras questões importantes que ganharam novas visões no PT atual. A polêmica privatização versus estatização, por exemplo, hoje é tratada de forma mais ponderada. No início, discutir a venda de empresas públicas era algo simplesmente inconcebível.

Alguns dos fundadores do PT em Pernambuco reconhecem as diferenças de comportamento ao longo de mais de duas décadas de forte atuação política. E nem sempre saem em defesa das mudanças. Para esses petistas, há muitos aspectos contraditórios na evolução do discurso partidário que, se por um lado deixou no passado teses importantes do chamado “socialismo moderno”, por outro assegurou ao PT uma presença mais forte nas urnas e mais penetração no setor formador de opinião, principalmente na classe média.

Um dos críticos das mudanças, o deputado Paulo Rubem Santiago – fundador do PT no Estado – analisa, sem papas na língua, que a real possibilidade de vir a ser Governo “domesticou” o PT. “Deixamos de lado a discussão política sobre conteúdo e passamos a discutir a questão eleitoral, mas vamos morrer na praia se apostarmos somente nas eleições e esquecermos nossos fundamentos”, alerta o petista, que em 1990 disputou o Governo do Estado, depois que o PT, mesmo dividido, rejeitou a aliança com Jarbas Vasconcelos (PMDB).

Os fundamentos a que se refere Paulo Rubem são, na verdade, as profundas ligações do PT com os movimentos sociais. Nascido do sindicalismo paulista – com o apoio da igreja progressista e dos intelectuais da “esquerda crítica” – o partido sempre empunhou a bandeira da luta social. Mas no entendimento de especialistas da área, afastou-se um pouco dessa briga para cuidar de interesses eleitorais.

Para Michel Zaidan, professor do Mestrado em Ciência Política da UFPE e um estudioso das esquerdas, pouco a pouco o PT ocupou uma posição de centro na política. Um lugar que, segundo ele, deveria pertencer ao PSDB, mas os tucanos se “direitizaram”. Hoje, Zaidan classifica o PT como de linha social-democrata. E justifica sua teoria lembrando as políticas compensatórias – amplamente utilizadas pelo Governo FHC – que o PT tem defendido. “Esses programas não mudam em nada os fundamentos da política econômica, como queriam antes os petistas. E mais: passam ao largo dos Estados e municípios, hoje constitucionalmente enfraquecidos”, afirma.

Segundo o cientista político, o PT esmoreceu na defesa de um novo projeto de Federação que fortalecesse a autonomia administrativa e a capacidade financeira dos Estados e municípios. “O PT, hoje, é uma legenda sem nenhuma veleidade revolucionária. Quer a reforma das instituições, mas não quer questionar a ordem vigente”, sentencia Zaidan, observando que essas mudanças, de certa forma, deram força ao partido. “Jamais o PT chegaria à classe média com um discurso revolucionário. Tinha que moderar o tom. Sem o sectarismo de antes, caminha para se tornar um grande partido de massas no País”, acrescenta.

A quebra do discurso revolucionário só veio depois de mais de dez anos de lutas. O ano de 1993 ficou marcado pelo expurgo da tendência considerada mais radical do PT, a Convergência Socialista (CS). Seus integrantes estavam incomodados com a política de alianças e o discurso light dos dirigentes petistas. Fora do PT, a CS uniu-se ao recém-fundado Movimento Socialista Revolucionário (MSR) para fundar o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU), que abraçou as antigas teses, mais sectárias, que basearam a criação do PT.

Presidente do PSTU e crítico incansável dos petistas, o químico Joaquim Magalhães diz que as mudanças no PT aproximaram o partido também do empresariado, antes tido como a personificação do bicho-papão. Mas isso, segundo ele, não significa que o PT se enquadrou na institucionalização. “O PT ainda mantém um pé nos antigos programas, só não tem mais aquela vontade de lutar. Quem mantém os fundamentos do socialismo é o PSTU”, defende.

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Jornal do Commercio
Recife - 09.12.2001
Domingo